terça-feira, 24 de novembro de 2009

A Coroa de Flores

Os filhos chegariam cedo. Ele acordou como sempre, sem sofreguidão, um velho cansado da vida. Ao despertar estremunhado seria imposta, ele sabia, uma espera surda. Por uma viagem que ele não queria fazer.
Amulher já ralhava com ele, sem motivo aparente. Estava órfão aos 65 anos, sem lembranças felizes, sem lágrimas a derramar. Como pode um homem não chorar a morte da mãe? Se soubesse a resposta, poderia replicar a mulher, como era de seu feitio. Mas não sabia, e aquela falta de emoção o deixava envergonhado. Agarrou-se ao portão da casa que caía aos pedaços e de lá não sairia, até que Pedro e Raul chegassem para levá-lo até o enterro.
Enfim apontaram na ladeira, desviando o carro das crianças que disputavam uma ruidosa pelada. Pedro, o caçula, mal esperou ele destravar o portão. Com um cumprimento rápido, seguiu a passos largos pelo corredor que dava na cozinha da casa. Queria acabar logo com o protocolo familiar e seguir viagem. Raul, o primogênito, ficou ali em frente ao Celta prateado, manejando a chave do carro com ar superior. Nem se deu ao trabalho de cumprimentar a madrasta. A mulher tinha pouco apreço pelos dois recém-chegados e nisso ele, pesarosamente, com ela era obrigado a concordar.
Era um velho dado a suspiros. Enquanto imaginava que seus próprios irmãos já iam longe na estrada, em suas espaçosas caminhonetes de cabine dupla, ele adivinhou, com desconforto, o que em breve aconteceria. Os irmãos moravam no mesmo bairro, a dois quarteirões de distância. Tinham combinado saírem logo cedo e já deviam estar em Campinas, onde a mãe morrera. Ao convite para se juntar à pequena comitiva, ele respondeu, sem contundência, que era melhor seguir com os filhos para o funeral. Sujeito orgulhoso, soturno e disperso, ganhara a fama de péssima companhia para os sobrinhos vitaminados, cheios de energia. Ele estava mesmo enorme e um tanto devagar. Corpulento demais para se espremer no banco de trás daquele carro apertado. E no entanto foi o lugar que os filhos lhe ofereceram, como se o pai fosse um estranho. Sem remédio, suspirou resignado e embarcou no carro, com uma certa dificuldade. Notou, sem surpresa, que a mulher não se dera ao trabalho de vir se despedir.
Como se fosse um guia de viagem, Pedro emendava números. A avó quase chegara aos 100 anos. E o percurso até Campinas seria de mais ou menos 100 quilômetros. Depois, o silêncio. Raul majestoso, sem pressa, preocupado apenas com o carro recém-financiado, primeira vez que tomava a estrada com sua preciosidade. Ainda sem estéreo, apenas o zumbido seco do motor amaciando. Pelo menos os carros dos irmãos tinham som, murmurou o velho para si mesmo. Mas ele também não suportava os irmãos.
Teria a velha mãe recuperado lucidez suficiente para avaliar filho por filho antes de morrer?, ele pensou. No caso dela, nove crias, nove vidas que seguiram diferentes destinos. A mãe andava decrépita nos últimos anos. Visitá-la era uma tortura, diziam os irmãos, mas para ele valia a pena conversar com a distinta senhora. As lembranças dela vinham em relances, sem aviso, e quase sempre eram episódios perdidos da infância de toda a prole. A porteira que precisava ficar sempre fechada, para não perderem a vaca Branquinha. A jabuticabeira dando cada vez mais fruto, o cheiro de pão caseiro, o queijo coalho assado pela manhã (ela sabia o ponto certo que cada filho gostava). A mãe sempre benevolente, sempre disposta.
Olhando agora para seus próprios filhos, Raul e Pedro, ele ficou imaginando se não havia falhado com eles. Se não os furtara do mais básico amor. Mas então lembrou que os irmãos que viviam perto dele eram bem a imagem dos filhos, sem paixões, destituídos de qualquer sinal de nobreza. Nada podia levar a crer que o amor recebido proporcionaria seres humanos melhores. Sobrepujado no seu canto, ele suspirou, o coração compungido pela triste descoberta daquela manhã.
Sem paradas, devido ao atraso, chegaram à residência da irmã, onde a mãe viveu seus últimos dias. Raquel, sua sobrinha adolescente, tinha ficado para trás, ajeitando a casa onde a maioria viria almoçar depois do enterro. Saiu às pressas pelo portão estreito e, agradecendo a carona, foi logo dando instruções sobre o caminho para Raul. Acomodou-se no banco de trás, sem cerimônias, o olhar atento e simpático voltado para ele ali, encolhido no banco traseiro. Foi como se uma brisa entrasse no carro e dissipasse toda a névoa.
Ele aspirou o perfume da sobrinha, como animal enjaulado. A garota tinha a pele quase escura, sedosa e brilhante. Os cabelos encaracolados caíam sob os ombros e adornavam o rosto límpido, de destacada beleza. Levemente constrangida, Raquel desviou sua atenção para os primos, como quem precisa dar conta de outros afazeres após ter limpado a casa. Seguiu-se uma conversa curta entre os três, sem animação, enquanto o velho retornava ao seu mundo de pensamentos tortuosos. O Celta cheirava a detergente, teria Raul se dado ao luxo de lavar o carro?
Como se ouvisse os pensamentos do pai, o filho acelerou para que eles avistassem, ao longe, o cemitério onde a família havia comprado o jazigo. Caberia à matriarca ter a honra de inaugurá-lo.
Assim que estacionaram, Raquel o puxou pela mão:
- Vem ver a vó, tio.
Ela praticamente o arrastou até onde o corpo jazia, em um salão austero. No caminho, identificou alguns rostos conhecidos, que não via há tempos. Os irmãos do Mato Grosso, do Paraná, até mesmo gente vinda de Rondônia. E finalmente a mãe.
Estava cheia daquela beleza triste que ela tinha antes mesmo de se tornar um cadáver. A cabeça levemente desproporcional, o nariz cheio de uma pasta viscosa. Estranhamente se fixou naquele ponto do rosto, bem em cima da boca, como se esperasse que ela voltasse a falar de caminhadas até a porteira e da vaca Branquinha. Em vez disso, ouviu o soluço de Raquel, que começava a chorar.
A garota apertou sua mão e ele a puxou de encontro ao seu peito. Sim, era doce aquele perfume. Ele maneou levemente a cabeça para ver a reação dos outros ao redor, Pedro e Raul ali bem em frente, outros ao seu lado, uma fileira de cadeiras ocupadas por gente de preto mais adiante. Mas ninguém parecia desconfiar do que se passava com ele. Era apenas um tio amparando a sobrinha desconsolada. Nem mesmo a sombra serena da mãe podia fazer ele deixar de dar seu mais longo suspiro, que nada tinha de compaixão ou tristeza. Desejava Raquel e queria prolongar aquele momento, desfrutar de algo que ele ansiava e era puro.
Súbito, porém, desgarrou-se da menina e a encarou, mirando diretamente aqueles belos olhos negros lacrimenjantes, dois olhos que agora faiscavam diante do seu próprio olhar horrorizado. Dele emanava um estranhamento grande o bastante para ultrapassar os ombros bem-feitos de Raquel, tomando de assalto o salão onde a mãe repousava. A vergonha estampada no rosto. Queria fugir e se refugiar do semblante atônito da sobrinha, mas não tinha forças, estava imobilizado pela dor. Foi preciso que Raul viesse em seu socorro.
- Vamos pai. Vem sentar comigo um pouco lá fora.
Raul, o filho mais velho. O primeiro que colocara no mundo, o primeiro a sofrer com a sua incapacidade de amar. O que ele ainda iria viver? E Pedro, tão ínfimo em sua busca pelo o que é estudado e comum. Algum deles ainda poderia amar uma mulher como Raquel, fazê-la alcançar a felicidade? Porque ele mesmo, animal acuado, sentia-se dobrado pela vida. No fundo, jamais pôde aspirar a tal regalia. A vergonha, o peso de uma existência desperdiçada. Era apenas mais um bruto, como todos eles. Um bruto que destrói coisas belas.
– Sou só um velho – ele começou a soluçar, inconsolável – Um velho é o que eu sou.
Raul se esforçava para animá-lo, mas enquanto balbuciava palavras de conforto, Pedro chegou para consultar o pai. Corria uma coleta para comprar uma nova coroa de flores, maior e mais bonita. E como eles não haviam colaborado com nada para o enterro, era justo que dessem algum dinheiro a mais dessa vez.
– Só que estou achando duzentos reais um bocado de grana. Acho que o tio Jorge está querendo faturar uns trocados com essa vaquinha.
Mais uma afronta, o velho pensou. Para a sua velha mãe, para eles mesmos. Tinha de admitir que o irmão era capaz de fazer tal coisa, mas o fato de que os filhos imaginassem o mesmo que ele só aumentava a torpeza daquele momento. “São mesmo meus filhos, isso não posso negar.”
– Toma aqui, leva lá para o seu tio.
– Tem muito dinheiro aqui, pai.
– Não interessa, faz o que eu tô falando. Compra a coroa mais bonita que tiver.
Desvencilhou-se dos dois e, suspirando como nunca, voltou ao salão.
Raquel estava agora agarrada a uma mulher que ele mal conhecia, as duas de pé, imóveis, observando a defunta. Por longos minutos ele ficou ali, sem reação, num devaneio, apenas vislumbrando quem chegava e partia naquela contemplação muda do corpo de sua mãe. Então, sem que ninguém percebesse que se aproximava, uma mosca pousou bem no nariz da pranteada. Deslizou suavemente pela pasta de cânfora que saltava das ventas infladas da falecida. O velho, diante da mãe ultrajada em seu próprio enterro, não esboçou reação. Só pensou afinal que a vida é uma piada sem graça, que demora para ser contada. E ali estava o final da piada de sua mãe, o final dele mesmo, que já sentia próximo.
Só a mosca, ousada e indecorosa no nariz da morta, é que podia sorrir.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Fique por perto quando escurecer

Hoje meu irmão Luca faz aniversário, e minha mãe mandou fazer o mesmo bolo do ano passado. Chocolate, com bastante cobertura. Mas dessa vez, pode apostar que a tevê não vem entrevistar o Luca, nem saber como a gente vai festejar o aniversário dele. Se vier, vão encontrar bolo de chocolate na mesa, e o primeiro pedaço vai ser meu.
Foi sempre assim desde que o meu irmão começou a exigir festa de aniversário. Mamãe estranhou da primeira vez, mas não teve como negar o pedido. É normal. Os pais fazem qualquer coisa quando a gente está doente. E o Luca, coitado, sempre fraquinho. Tudo por causa da doença dele. Quando o Luca ainda era um bebê, os médicos disseram que nunca tinham visto um negócio daqueles. Sem poder comer nada, nem tomar leite, só se alimentar com suco de limão. Foi por isso que a tevê veio uma vez, no aniversário dele. E continuou vindo depois, várias vezes. Já me acostumei. Só acho um pouco chato no outro dia, quando as meninas da escola chegam todas curiosas e querem saber como foi, ou porque não foram me entrevistar. Alguém perguntou para o Luca como ele se sentia e ele respondeu: “Um ser humano vindo de outro planeta.” É mais ou menos o que eu sinto também, quando perguntam do meu irmão.
Ele nasceu dois anos antes de mim e este é o décimo segundo aniversário dele. Acho que o primeiro que ele comemorou foi o de oito anos. Pelo o que me lembro, tinha um monte de velinhas em cima daquele bolo, e ele apagou todas de uma vez. Num sopro só. Mamãe e Papai correram para ver se ele estava bem, porque, para o Luca, aquele era um esforço muito grande. Mas ele só sorriu e pediu para Mamãe cortar o bolo. Depois virou para mim e me ofereceu a primeira fatia. Ninguém come muito nessas festas do Luca, porque as pessoas parecem meio culpadas de estarem comendo e ele ali, só tomando suco. O mesmo suco de sempre. Mas eu faço questão de me empanturrar de bolo nessa hora. Chego até a me lambuzar. O que as pessoas não entendem é que não se pode contrariar o aniversariante. O Luca terminou aquela sua primeira festa cansado como nunca, mas feliz.

Outra coisa que ninguém vai saber são as brincadeiras inventadas pelo Luca. A diversão preferida da gente. Ele batizou nossas conversas sobre comida de “mastigadinha”. Criamos uma senha – “Vamos dar uma mastigadinha 9 – para começar a brincadeira. Papai uma vez se admirou com a risada do Luca depois que eu contei para ele como era a sensação de mastigar pipoca. Em quanto tempo você termina de lamber um pirulito 9 Como é o gosto de pizza 9 E churrasco 9 E a vitamina que o Papai toma antes de dormir 9 Guardo até hoje comigo a lista que a gente fez das coisas que o Luca ia dizendo que gostaria de comer, quando ficasse curado. Acho que a vitamina do Papai está em terceiro ou quarto lugar na preferência dele.
Papai é sempre o mais nervoso da família. Ele trabalha muito e vive preocupado com tudo. Quando o assunto é o Luca então... A festa deste ano já foi o suficiente para estressar o Papai. Mamãe me contou que ele sempre foi assim, mas piorou muito antes de eu nascer. Ele achava que podia acontecer comigo o mesmo problema do Luca. E não adiantava os médicos dizerem que aquela era uma doença rara, e que era praticamente impossível que eu tivesse a mesma coisa. Ele continuou acreditando que algo errado poderia acontecer até o dia em que eu nasci.
Mas Papai foi calmo o bastante para ensinar o Luca a ler e escrever. A escola só durou uma semana para o meu irmão. Foi o tempo em que o Luca se animou e pediu para Mamãe tirar o tubo do estômago dele, um trabalhão danado toda manhã, só para ele tentar assistir as aulas como um menino normal. Depois isso ele já não quis ir mais, e Mamãe e Papai resolveram que ele não precisava ir mais mesmo. Tudo por causa dos apelidos que começaram a inventar para o Luca. Fininho, Fantasma, Sombra, Palito, Caveirinha, Cabeção, Capacete. E o que ele mais detestou: Cadáver. Era muita judiação falar assim dele, então Papai e Mamãe deixaram Luca ficar em casa, em vez de sair para estudar. A única coisa que o meu irmão aprovou na escola eram as músicas que as crianças cantavam no pátio, antes de subir para a aula, Só mais tarde, quando eu entrei no mesmo colégio, é que eu entendi o que ele estava falando.

Depois que eu fui para a escola e aprendi a ler, o Papai não precisou mais ensinar o Luca. Eu mesmo passei a contar para ele o que era preciso aprender, sempre depois da minha aula. Por sorte, ele seguiu o meu próprio gosto, então eu risquei Ciências e Matemática das nossas aulas particulares. Logo ele aprendeu a recitar o nome completo da Princesa Isabel, a saber quantas braçadas era preciso dar para atravessar o Canal da Mancha e como se falava “me passa o guardanapo” em cinco línguas diferentes. Ele começou a impressionar todo mundo com esse tipo de conhecimento, então eu fiquei orgulhosa. Descobri que tenho muito jeito para ensinar.
Mamãe tentou acompanhar o Método Luca de Ensino, mas ela também está sempre ocupada, de um jeito ou de outro, e na maioria das vezes é por causa do meu irmão. Vejam só o trabalho que essa festa está dando, mas ela tira de letra. Mamãe aprendeu a dirigir depois de velha, só para levar o Luca até o hospital. Quando a tevê liga e quer entrevistar o Luca, é ela que combina as coisas. Uma vez convidaram a família toda para um programa de entrevistas, desses que passam na hora da novela, e que tem sempre um médico ou um advogado comentando a vida de outra pessoa. Mas Mamãe não deixou o Luca ir, nem ninguém. O Luca não reclamou, ele queria mesmo era ir na praia. Mamãe até deixou, mas ele ficou com medo de que os meninos o chamassem de Cadáver mais uma vez, por isso desistiu do passeio.
Eu me lembro da primeira vez em que ele apareceu na televisão. Eu era tão pequena que tiveram que me erguer para ver a tevê. Ainda sou baixinha para a minha idade, mas nunca quis crescer muito mesmo. A melhor fase da minha vida foi quando eu tinha o mesmo tamanho do Luca, mas durou pouco.
Naquele dia, havia um monte de gente na nossa casa, incluindo o Vovô e a Vovó. Acho que o Luca moraria com o Vovô e a Vovó se pudesse, porque eles nunca olham feio para ninguém, muito menos para o Luca, e estão sempre fazendo uma bagunça danada quando encontram alguma criança. Foi o Vovô que descobriu que era possível colocar corante no suco do Luca, sem alterar a receita do médico. Precisavam ver a cara de satisfação dele na primeira vez que experimentou o suco especial da Mamãe na cor azul.
Depois que o Luca apareceu pela primeira vez na televisão, começaram a mandar um monte de cartas para ele. Mamãe costumava ler as cartas, uma por uma, e depois ainda fazia um resumo dos melhores pedaços, a pedido do Luca. Só mais tarde é que eu fiquei encarregada de ler as cartas, mas chegou uma hora em que aquilo já não bastava para animar o Luca.
Meu irmão andou muito triste no último ano. Um dia ele virou e disse: “As pessoas querem me conhecer, mas ficam paralisadas quando olham para mim.” Acho que foi nessa vez que eu prometi que nunca ia deixar alguém olhar feio para ele. Estaria sempre ao seu lado.
Quando ele ficou bem doente, fazia de conta que estava morrendo, que estava ficando tudo escuro. “Por favor, fica comigo Amanda. Não me deixa sozinho no escuro”, ele falava, e eu apertava a mão dele bem forte. O Luca não queria nem mais beber o suco de limão, então a Mamãe tinha que colocar gelo na boca dele, quando estava dormindo. E foi assim até depois do Natal, quando o Luca desobedeceu todo mundo e comeu uma coxa de peru. Naquele dia o Vovô e a Vovó vieram e saíram chorando do quarto do Luca, daí eu percebi que a coisa era séria. E quando ele se foi, eu não estava por perto, para cumprir minha promessa. Foi o pior Natal da minha vida.
Mas estou melhor agora. Logo vamos cantar os parabéns. Papai ajeitou o retrato do Luca na sala, e o Vovô e a Vovó chegaram com um monte de presentes no porta-malas do carro. Mamãe preparou um jarro enorme com suco de limão e deixou na mesa, ao lado do copo do Luca, aquele que tem o Calvin fazendo careta, que ele tanto gostava. Ela disse que o Luca virou um anjo, e provavelmente está acompanhando tudo lá do céu.
Tudo que ele sempre pediu na sua festa de aniversário.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

BREVE RECOMPENSA

Cabelo espetado, rubro como fogo. O jaco puído que ganhou após uma bebedeira, na Santa Cecília. Jeans rasgados, camiseta preta sem mangas. Desce no metrô República, o passo largo e bêbado, assustando o povo. Mas logo esquecem sua esquisitice.
Confere os anúncios, na Barão de Itapetininga. Alguém coça a cabeça ao seu lado. Ouve em silêncio, enquanto traga o último cigarro, comprado no camelô. "Nenhum emprego", o homem lamentava. "Cidade dos infernos."
Era preciso um esforço atroz para não desistir. E a recompensa? Um posto em um escritório. Alex, o primo de visual careta, havia conseguido. Sentia falta dele. E pensava também em Vic. Seria mesmo aquele o nome dela?
Com Alex, matava o tempo folheando revista no Anhangabaú. Nas lojas da Santa Efigênia. O velho dos vídeos pornôs. Nunca compravam nada, mas ele sempre tinha uma dica. "Essa faz de tudo", garantia, autoridade em sacanagem.
Mulher pelada era na rua Aurora. Cinco paus cada, ficavam lá no fundo, longe do palco. Onde elas dançavam, o som no último volume. Depois, vinham conversar, pediam bebida. Dependiam daquilo para sobreviver. Mas eles não tinham dinheiro, e logo as mulheres se afastavam.
Uma tarde, alguém se acomodou ao seu lado. Resto de dignidade no olhar, contou sobre o filho que a esperava em casa. A velha que a difamava e exigia aluguel na data combinada. Teve pena dela, mas não admitiu para o primo.
Alex agora trabalha na Paulista. Será que ele sente falta do mate gelado, na São João? Do churrasco grego. O almoço barato na Rio Branco. Quando será que a fome iria apertar?
Pensava em Vic. Vic do Butantã. Meio roqueira, meio princesa. Gostava de uma banda gótica. Como era mesmo o nome? Ele não lembrava. Só lembrava da capa do CD. Passos largos, a fivela do coturno soando contra a perna, rumou para a 24 de maio. Veria a capa do CD, refrescaria a memória.
Na galeria, o sujeito já ia adiante, no corredor, quando deu meia volta. "Você é o cara", disse, tocando o ombro sob os cabelos cor de fogo. "É comigo, maluco?", respondeu. Era. "Topa ganhar cem paus?", perguntou o maluco.
Levou-o até o estúdio, escondido na Boca. O cabeludo guiando-o entre as divisórias. Fotos por todo canto, até no chão. Jazz bands, mariachis, sertanejos. O maluco da galeria parecia orgulhoso de cada uma delas.
A sessão começou e o fotógrafo de ar tristonho era exigente. Levou tempo, mas deu o trabalho por encerrado. Um mês depois, Alex riu ao ver aquele rosto numa coletânea de rock. O nariz, proeminente, tinha estilo.
No final, o maluco o levou até a rua. Sujeito simpático. Estendeu um cigarro, enquanto passava por eles a garota, ainda jovem, balançando a cintura. "Faz strip no My Love", comentou o outro, de olho naquele rebolado. "Vê só que tesão. Ainda cato essa mina."
Lembrou da mulher que conhecera na Aurora. E já não gostava tanto do maluco da galeria. Saiu andando sem se despedir, passos largos, atrás daquele CD. Do busão do Butantã.
Antes, compraria um cigarro decente.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

CELEBRIDADE

“Como funciona a vida?” Ah, se ele pudesse saber...Mas ele não sabia। O menino era só pele, ossos e aquele sinal de interrogação permanente, estampado no rosto. De pouca conversa, mas dado às perguntas. “Lá vem o Mindinho”, diziam quando ele apontava, a cabeça redonda, negra e reluzente, na roda dos camelôs que vendiam DVD pirata, no topo da ladeira General Carneiro. Mindinho chegava encolhido, as mãos no bolso do casaco encardido e as pernas de fora, prontas para uma providencial disparada. Logo lascava a primeira pergunta:- Onde vai ser hoje?Depois ficava mudo, só imaginando o percurso que iria fazer se o rapa viesse naquele dia. Balbuciava as manchetes nas capas dos jornais na banca, enquanto alguém trazia café num copo plástico e um sanduíche de mortadela. “Toma aí Mindinho. Se os home aparecer, já sabe...”Disso ele sabia. O melhor aviãozinho que os camelôs poderiam ter. Do largo da Memória, onde dormia, até os limites do parque da Luz, não havia atalho que Mindinho não conhecia. O menino era uma ajuda e tanto para os negócios. Só deixava os camelôs nervosos quando, distraidamente, começava a fuçar nas pilhas de DVDs. Por precaução, escondiam os pornôs, mas Mindinho não queria ver mulher pelada. Gostava de comparar os nomes dos artistas nas capinhas dos filmes.À noite, não usava as pernas, e sim os braços. Costumava ajudar a descarregar equipamento de som nos fundos do Teatro Municipal. O encarregado sabia que os braços finos de Mindinho não eram grande coisa, mas tinha pena do menino. Deixava ele ficar por ali e de vez em quando dava uma ordem:- Ô Mindinho, vai chamar fulano. Depois traz aquela corda ali pra mim. A única recomendação era não dar as caras no teatro, e disso Mindinho se ressentia. Aguardava a vez em que pudesse entrar no teatro grandioso, não na platéia, mas como a atração principal. Porque Mindinho queria mesmo era ser artista e tirar férias do mundo. Pelo menos daquele em que ele vivia.
Uma vez, voltando do teatro, Mindinho encontrou a cidade estava em festa। A música era tão alegre, tão convidativa. Virariam a noite naquela animação. Só o que Mindinho tinha a fazer era se misturar ao povo, ir de palco em palco ouvindo as canções. Bom para ele, que já sofria de insônia e muitas vezes não conseguia dormir. Mas o menino estava desorientado. Pensava no garoto, negro como ele, que já fazia filmes e dava entrevistas. Uma celebridade das capas de DVDs.“Por que alguns são escolhidos e outros não?”, Mindinho queria saber.Em vez de ir pela Barão de Itapetininga, pegou o caminho do viaduto do Chá. Viu as estátuas humanas, uma série delas, a fada, o arqueiro, o anjo. Reluzentes, brilhantes como nunca mais voltariam a ser. Turistas tiravam fotos, o ar gelado do Anhangabaú servindo como moldura. E lá embaixo o descampado onde horas antes Mindinho corria, os fiscais da prefeitura no seu encalço. Uma celebridade, isso sim ele deveria ser. “Menino, desce já daí”, disse a mulher, a única a perceber o movimento de Mindinho, já no parapeito do viaduto.Se ele pudesse acordar daquele sonho.Se ele pudesse voar...

segunda-feira, 29 de junho de 2009

LOBO CANSADO DE LEVAR CHAPÉU

Depois que o Lobo Mau foi solto, Chapeuzinho Vermelho resolveu ligar para ele e convidá-lo para uma balada. Era um luau de responsa que a Pequena Sereia estava organizando. Chapéu, não mais uma garotinha, chamou também toda a sua turma: a Bela Adormecida, Branca de Neve e a Cinderela. Todas ficaram na maior empolgação para ver de perto a pegada do Lobo – sempre a fim de comer uma donzela indefesa.
O Lobo, porém, tava numa onda diferente e achou que aquela festa seria uma roubada. Na real, só pensava mesmo em trombar com a vovó, que ele comeu antes de ser enganado pela Chapéu. “Seria uma vibe manera”, ele pensou com seu único botão, enquanto completava, no estúdio de tatuagem, o desenho com a fuça dos três porquinhos que ele mandou fazer, logo depois que saiu da temida prisão do maravilhoso mundo das fábulas.
O Lobo então descolou um béque e, depois de muito viajar, baixou no luau da Sereia. Colou no pico e logo cruzou Chapéu e a galera.
- Tá sabendo do auê que tá rolando? O Joãozinho Pé-de-Feijão ficou com a Fada Madrinha. Parece que ele gosta de coroa.
- Menina, e o penteado novo da Rapunzel? Gente, que é aquilo? Não tem parafina que dê jeito.
“Véio, como essas minas são rasinhas”, pensou o Lobo. Até que Chapéu ficou só por alguns instantes, e ele não perdeu tempo. Tava fissurado na vovó.
- Queria saber onde ela anda.
- Só digo se você me mostrar para que servem esses dentes tão grandes. E dessa vez não vai rolar caçador na parada.
O Lobo, enfurecido e lembrando dos maus bocados que passou na prisão, comeu a Chapéu, a Cinderela, a Branca de Neve e todas as outras donzelas que haviam no luau. Depois daquela festa, ficou conhecido apenas como o “Velho Lobo do Mar”.
Mas, na real, o que queria mesmo era comer a vovó.

sábado, 16 de maio de 2009

O PREÇO DA RECONCILIAÇÃO

Sei muito bem o que é passar um fim de semana sem grana em São Paulo. Sem pelo menos uma onça no bolso (quem em sã consciência fica admirando nota de dinheiro e colocando apelido nelas? Traficantes? Políticos corruptos?). A situação é bem essa: No money, no fun.
Conheço muitos estrangeiros que não se intimidam em afirmar aquilo que nós, paulistanos, fingimos não ver: nossa cidade é cara para se divertir. Os restaurantes, nosso orgulho, têm preços europeus. Os cinema, outrora acessíveis, tornaram-se um programa dispendioso (uma onça será suficiente apenas para seu ingresso, o da namorada, o estacionamento...e olhe lá!). O universo musical, conheço de perto. Com a desculpa de estarem perdendo dinheiro com a meia entrada, os empresários do show business elevam os preços dos ingressos às alturas (show do Kiss em São Paulo: meia entrada a 70 reais. Incrível, mas uma onça não é suficiente). O jeito é encontrar um bom livro, de preferência em um sebo. Mas eles fecham cedo no sábado, melhor correr e garantir um domingo de boa leitura.
Sandro não era um estrangeiro, mas quase. Nasceu no Mato Grosso, viveu os melhores anos de sua vida no Rio, em Ipanema. Depois baixou em Sampa, como os cariocas gostam de dizer, mas nunca foi feliz por aqui. Na verdade, detestava São Paulo. A cidade era fria, opressiva. Aqui Sandro não ia a praia, não tomava o chope gelado na Pizzaria Guanabara com a sua galera. Solitário, lembrava a todo instante que tinha uma mãe doente e uma diferença irreconciliável com os irmãos lá na cidade natal dele.
Encontrei-o nos bares de Moema, onde eu trabalhava na época, fizemos amizade. O dinheiro andava curto para nós dois, então o Sandro me convidou para dividir o apê que ele alugava na Maracatins, perto do Shopping Ibirapuera. Me instalei na sala e a nossa convivência durou uns três meses. Sandro era uma boa companhia, desde que o assunto da conversa não fosse São Paulo. Daí ele desembestava a falar mal da cidade, do povo, da dureza que era viver aqui. Felizmente, para essas situações, sempre havia a tevê, no caso, equipada com uma providencial gambiarra que nos permitia ver todos os jogos, de todos os campeonatos, mesmos aqueles do pay-per-view. Vascaíno, ele não perdia por nada as partidas do alvinegro carioca.
O apartamento era ótimo. Andava três quarteirões, atravessando o shopping, e estava no trabalho. No caminho de volta, desviava da luxuosa área gastronômica e parava na banca de sucos que havia ali, num corredor lateral do shopping. Pedia um mix de frutas e aquele era meu jantar em época de vacas magras. Bons tempos aqueles.
Outros momentos inesquecíveis aconteciam sempre na entrada do prédio, geralmente pela manhã. Mulheres cheirosas e superproduzidas, em seus jipões incrementados. Nunca sabia ao certo se estavam chegando da balada ou saindo para alguma reunião importante. Depois me interei de que o prédio era uma espécie de sede das operações daquelas garotas – acompanhantes de alto padrão. Um luxo para mim, me contentava com a visão esplendorosa, hollywoodiana, daquelas gatas fatais. Mas o Sandro sonhava com um encontro. Que nunca veio, pelo o que eu pude apurar.
Em muitas ocasiões naqueles três meses, tive tempo de sobra para essas fantasias e outros pensamentos mais, digamos, transcendentais. Em um sábado, estava sozinho no apê, o Sandro fazendo plantão no hospital. Como numa canção dos Smiths, sentia-me insuportavelmente miserável para uma tarde ensolarada. Comecei a fuçar no apartamento, procurando algum livro. Mas o Sandro era fisioterapeuta e não muito chegado a uma leitura. Se dependesse de sua biblioteca particular, teria que me distrair com compêndios de anatomia.
Resolvi vasculhar atrás da pequena estante da tevê e então encontrei uma bíblia de capa dura. Dentro, a surpresa: uma onça! Cinquenta paus esquecidos entre os provérbios e, surpresa ainda maior, um bilhete, meio amarfanhado, com linguagem bem mais rasteira que a dos velhos escribas das sagradas escrituras, clamando por desculpas. Nunca soube dizer qual teria sido a ligação entre a nota de 50 e aquela breve carta, acanhada súplica, perdão solenemente ignorado. Briga por grana? Um empréstimo que não foi pago? Fosse simples assim e o cinquentão, muito provavelmente, não teria sobrevivido para contar a história.
Conclui que a mágoa ou a raiva foram de tamanha intensidade que a pessoa ferida preferiu esquecer o bilhete e a grana numa bíblia. Tão escondida estava que ficou adormecida, sabe-se lá por quanto tempo, até aquele sábado ensolarado. Pensando na história toda, fiquei um tanto triste, mas no final aliviado por ter encontrado a grana. Posso dizer que soube honrar a memória do ex-inquilino com uma boa dose de diversão.
Pouco tempo depois, eu e meu amigo nos separamos. Nunca mais vi Sandro, nem tive notícias dele. Resolveu voltar para o Mato Grosso, em busca de uma reconciliação consigo mesmo.
Tomara que a viagem tenha valido a pena.

sábado, 21 de março de 2009

A BELA JUNIE

Filme francês, estava passado batido nessa época de oscarizados(estava mesmo, demorei para postar este texto e agora, ao que tudo indica, é esperar o DVD...sorry). Uma amigo recomendou muito, então lá fui eu para o decadente Gemini conferir. É um cinema antigo, numa galeria da Paulista, perto da Prainha, lugar de muitas lembranças adolescentes. Quase todo filme que está prestes a sair de cartaz agora sobra no Gemini. Se cai nas graças do público, acaba permanecendo mais um tempo em exibição. E assim o cinemão (provavelmente o único que ainda tem poltronas de couro em São Paulo), vai resistindo. Melhor seria se tivesse uma escada rolante, pois os velhinhos que frequentam suas sessões sofrem com a sequência enorme de degraus.
Mas o filme é um espanto, perturbador até. Se fosse americano, entraria naquele adorável gênero "corredor de colégio", que tanto me agrada. Curto bastante esses filmes com dramas típicos do high school americano: a garota deslocada que quer namorar o garotão popular, as cheerleaders, as fanfarras, os nerds, as professoras boazudas. A Bela Junie tem um punhado de personagens típicos do universo colegial. Há até o gay que não quer assumir e esse, no caso, vem a ser o primo da tal Junie, que se muda para a escola onde acontece a história, após a morte da mãe.
São histórias e personagens secundários, pano de fundo para o retrato do trio amoroso que se forma entre Junie, o namorado Otto e o professor de italiano garanhão, que se apaixona e quer conquistar a bela. Otto diz a frase emblemática do filme - "Pensei que você fosse diferente" - e então...
Assistam, vale a pena. Só posso dizer que há muitos que passam a vida inteira tentando encontrar alguém "diferente" e não conseguem. A Bela Junie é a musa desses amores perdidos.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

MERGULHO NO LAGO VAZIO

Eis o verão que se despede, inóspito, esbravejante. Dias de mormaço e chuvas torrenciais, muita água na cidade, exceto no lago da Aclimação, que morreu por castigo dos céus. Secou para dar lugar a um lamaçal. No fundo encontraram lixo acumulado ao longo de décadas, detritos que só os peixes, agora também mortos, podiam ver. Vozes oficiais dão conta porém que o lago ressuscitará.
Como seria bom se nós pudéssemos, como o lago, nos despir de toda sujeira e então ressurgir imaculados, águas plácidas onde poderíamos verter novas paixões e esperanças. Contudo, a vida prossegue, sufocante como o verão que agora termina.
O lago vazio e nossas ansiedades ficarão no abismo da memória. Serão uma lembrança longínqua dessa tórrida e tempestuosa estação.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

FERIDAS DA FÉ

Noite de domingo, desaba o teto da igreja. Fico sozinho no meu canto, não tenho coragem de sair de casa e me juntar à multidão que se aglomera na esquina já tomada por repórteres, equipes inteiras de televisão. Apenas imagino o sofrimento que emana dos destroços, sob o zumbido dos helicópteros.
No dia seguinte, ouço na rua as histórias de quem esteve – ou deveria ter estado – na igreja. Um deles, fiel convertido "do mundo", como ele mesmo se apresenta, garante que houve um milagre. Ficaria para o culto das sete, mas resolveu sair para fumar no intervalo. "Foi Jesus quem me salvou", diz ele. "Talvez tenha sido o cigarro, não Jesus", penso comigo mesmo. O homem me olha suplicante e eu apenas confirmo: "Foi mesmo um milagre". Impossível convencê-lo de que haveria outro motivo para ainda estar vivo.
Mais adiante, uma mulher chorando me diz que estaria naquele domingo à noite na igreja, mas decidiu ir pela manhã, havia outros afazeres marcados para o resto do dia. Mais uma intervenção divina, outro escolhido. Quem não pereceu, nem ficou ferido, acredita que Deus operou em seu favor. Mas e os que não tiveram essa sorte? Por que Deus os escolheu?
Evito pensamentos sombrios. Em meio ao infortúnio, mensagens de esperança. Os fiéis querem reconstruir logo o templo, demonstram desapego, solidariedade. A fé verdadeira não se abala com a queda de um telhado.
Então observo um homem, um oriental de cabelos grisalhos, imóvel, concentrado. Permanece sentado em uma das cadeiras vermelhas que eram da igreja, mas que agora estão empilhadas no calçamento. Testemunhas mudas de uma noite de lamentações. O velho também está calado, absorto, totalmente indiferente ao burburinho ao seu redor. No que estaria pensando? Algo nele teria desabado também? Não há respostas aparentes. A tragédia vira show, espetáculo.
Chego mais perto e percebo que o homem na verdade está rezando. Uma súplica quase imperceptível e, talvez por isso, comovente para quem o descobre, em meio à multidão . A igreja em ruínas de repente se transporta para a calçada daquela esquina do Cambuci. Ali o homem faz seu próprio culto e eleva sozinho sua voz ao céu.
Súbito, me dá vontade de rezar também. E dizer para aquelas pessoas que acredito em milagres, em singelas manifestações de apreço pela vida humana que se perde e se renova. Renasce, enfim, a cada instante.
(Crônica publicada na Gazeta da Aclimação em 22/01/09)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

QUERO ESTAR PERDIDO

A primeira vez que vi um GPS, essa maquininha que os taxistas agora usam para encontrar endereço e rotas de acesso, foi na Alemanha. No começo, um teutônico motorista foi designado para fazer o transporte de nosso grupo, formado por brasileiros que estavam a trabalho em Frankfurt. O aparelho funcionava então perfeitamente. Mas depois, quando nós tivemos à disposição um carro alugado para andar por conta própria, o tal do GPS desandou.
Não foi um raro defeito da tecnologia alemã, e sim problemas causados por operadores de primeira viagem. Sem conhecimento prévio da geringonça, vivíamos digitando o endereço errado ou simplesmente ignorando as indicações, em inglês, do GPS. “Turn around” ele insistia, a cada barbeiragem, ou seja, em tradução livre, “dê a volta enquanto é tempo, seu mané”. Adotamos o “turn around” como sinônimo de mancada durante o resto da viagem – não só no trânsito, mas em qualquer ocasião.
Lembrei desse episódio, ocorrido há uns quatro ou cinco anos, ao ler sobre uma pesquisa que uma marca mundial de celulares divulgou, no final do ano passado, concluindo que o brasileiro está entre os povos mais perdidos do planeta. Bem que desconfiava. Todo mundo sabe que o brasileiro é teimoso, quase nunca admite que não tem a mínima noção de onde está quando isso acontece. Mas a pesquisa foi além e mostrou que somos também refratários à tecnologia que facilita a localização. Talvez seja por isso que o tal do GPS demorou tanto para chegar até aqui.
Quem de nós nunca perdeu um compromisso por ter se perdido e não teve a coragem de admitir depois? Ou faltou a uma entrevista? Pior, deixou a namorada esperando. Com certeza, muitos já estiveram de carona em um carro e ficaram à mercê de um motorista sabichão, daqueles que sempre acreditam que sabem o caminho, mas que na maioria das vezes não fazem idéia de onde se enfiaram.
O brasileiro é assim. Dia desses, seguindo uma orientação (adoramos dar dica de itinerário, não podemos ver outro brasileiro perdido), desci a escadaria da rua Batista do Carmo, aqui na Aclimação, e dei de cara com o parque. A rua se alongava à direita e à esquerda, e eu não sabia qual direção tomar. Queria atravessar a avenida Sangirardi e seguir a pé até a Vila Mariana. Segui o instinto sabichão, aquele GPS natural que o brasileiro possui, e virei à esquerda.
Deu certo। Mas não seria de todo mal ter virado à direita. Provavelmente veria mais paisagens do parque, teria mais inspirações pelo caminho. Os alemães, inventores da autobahn, e os brasileiros mais sensatos, vão me achar um tolo, mas às vezes é ótimo estar perdido.
(Crônica publicada na Gazeta da Aclimação em 15/01/2008)