<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-4084885292211299704</id><updated>2012-02-16T16:53:14.487-08:00</updated><category term='Poesia'/><category term='Conto'/><category term='Crônica'/><title type='text'>INSTANT KARMA</title><subtitle type='html'>A VIDA APENAS, COM AS DEVIDAS MISTIFICAÇÕES</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Nelson Lourenço</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04425784941732260792</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp0.blogger.com/_FEI36-7-VgQ/SAIJOhqKuMI/AAAAAAAAAAg/rm6VhM7V6W8/S220/Imagem+209.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>32</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4084885292211299704.post-5260677583613443610</id><published>2010-09-01T16:42:00.000-07:00</published><updated>2010-09-01T16:42:17.729-07:00</updated><title type='text'>A GRANDE FINAL EM ITAQUERA</title><content type='html'>Depois de uma novela mexicana, estrelado por Don Sanchez e Rick Teixeira, Itaquera deve ser mesmo o palco da abertura da Copa. Da abertura amigos, porque a final já aconteceu há 32 anos. E só dois jogadores estiveram lá para disputar o mais cobiçado título da temporada: eu e meu primo Wilson.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro perfeitamente que chegamos ao topo do morrinho em grande estilo. Éramos adversários, mas naquele dia especial jogamos com o mesmo fardamento: camisetas longas azuis, estilo cacharrel, e calções brancos emprestados da aula de educação física. Foi o mais próximo que tínhamos no guarda-roupa do uniforme número dois da seleção brasileira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Copa da Argentina passava na tevê, debaixo de um frio de rachar. Éramos (continuamos tentando ser) palmeirenses. Acho que foi o Jorge Mendonça entrando em campo de camisa longa, depois de uns cinqüenta minutos de aquecimento, que inspirou a gente a adotar aquele uniforme. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do morrinho em frente de casa, dava para ver a linha do trem que chegava ao subúrbio. O jogo consistia em chutar a bola no trem em movimento. Quanto mais longe o trem levasse a bola, melhor o chute. Naquela época, as composições não eram todas lacradas como agora. Viajava-se com o vento entrando pelo vão das portas abertas. Acertar o coitado que estivesse tomando um ar ali na porta valia pontos. Fazer a bola passar pelas portas abertas e sair do outro lado do trem era ainda melhor, mas acho que nunca consegui pontuar nesse segundo quesito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perdi a grande final de 78 e logo abandonei a carreira de atleta. Meu primo teve pior sorte: torceu pela Argentina naquela Copa e estranhamente começou a admirar o futebol dos gringos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, a linha do trem que havia ali está desativada. Todo aquele terreno que a gente conseguia enxergar do alto do morro virou estacionamento de shopping. Abílio Diniz sobrevoou nosso campinho de helicóptero e tudo, antes de dar o OK para o empreendimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No lugar em que a gente aperfeiçoava nossos chutes na infância, ergueram várias lojas. Uma delas de material esportivo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4084885292211299704-5260677583613443610?l=nelsonlourenco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/feeds/5260677583613443610/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4084885292211299704&amp;postID=5260677583613443610' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/5260677583613443610'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/5260677583613443610'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/2010/09/grande-final-em-itaquera.html' title='A GRANDE FINAL EM ITAQUERA'/><author><name>Nelson Lourenço</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04425784941732260792</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp0.blogger.com/_FEI36-7-VgQ/SAIJOhqKuMI/AAAAAAAAAAg/rm6VhM7V6W8/S220/Imagem+209.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4084885292211299704.post-2487205097938486071</id><published>2010-08-27T19:23:00.000-07:00</published><updated>2010-08-27T19:23:23.313-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Crônica'/><title type='text'>MÁRCIA REGINA EMBARANGOU</title><content type='html'>Os amigos da faculdade perguntam porque não freqüento os encontros de reencontros, aquelas reuniões que alguém do grupo de alunos marca de vez em quando para retomar o contato. Não sou o único recalcitrante, é verdade. Outros também fogem ou ignoram o compromisso. Eu, pelo menos, tenho lá meus motivos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Consta, segundo depoimentos fidedignos de amigos freqüentadores dos encontros de reencontros (sim, nós recalcitrantes sempre contamos com a ajuda de amigos mais próximos para nos atualizarmos sobre a velha turma), que a cada vez que acontece uma reunião do gênero, uma surpresa é relevada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você tem que ir da próxima vez. Precisa ver como fulano mudou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E sicrano então? Casou de novo, está remoçado. Nem parece aquele ranzinza que você conheceu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A notícia que mais me atemoriza, no entanto, é que todas as três Márcias que fizeram parte da nossa turma são assíduas nesse tipo de reunião. Na verdade, com duas delas, não tenho porque me preocupar. Façamos aqui um pequeno inventário: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mais chata de todas, Márcia Helena, que a gente chamava de “Zica”, nunca foi muito próxima de mim. E havia ainda outra Márcia, mais velha para o padrão da classe, que se sentava no fundo da sala e quase nunca abria a boca. Nem me lembro ao certo qual era o segundo nome dela (Márcias sempre têm um segundo nome, podem reparar, vejam a Márcia Regina que já vai ser apresentada na história, que não me deixa mentir). De qualquer maneira, a Márcia do Fundão era um enigma. Corria o boato de que o namorado era muito ciumento, o que explicava o olho roxo e algumas eventuais escoriações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Márcia Regina, porém, é motivo de desconforto sempre que alguém toma a iniciativa desses encontros. Morena, diminuta, sorriso perfeito, “prafrentex”, como a gente costumava dizer, ela foi meu primeiro amor na faculdade. Pelo menos da minha parte. Cheguei a mencionar alguma coisa para ela nos austeros corredores da Cásper Líbero sobre namoro ou algo assim – e ela solenemente me ignorou. Na verdade, acabou se casando logo com um músico de topete cuidadosamente desgrenhado, que não sei ao certo porque decidiu circular insistentemente pelos calçadões da Gazeta naquele longínquo 1989. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os conturbados anos 80 terminaram, e no início da década de 90 cada um estava se virando como podia na carreira de jornalista – alguns mais, outros menos bem-sucedidos. Márcia Regina resolveu ser dona-de-casa e ter filhos. Perdemos o contato. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa tarde de sábado, muito tempo depois, andava pela livraria Cultura no shopping Villa-Lobos, quando se deu o reencontro. Não podia ser, custava a acreditar, mas era ela mesma: Márcia Regina, secundada por três lindos pimpolhos. Dava para ver as marcas que a prole havia deixado. A cintura e o traseiro haviam ganhado proporções inimagináveis. Ostentava um sorriso cansado de mãe entre a balbúrdia de crianças que se aglomeravam na seção de literatura infantil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não esperei pela chegada do músico, nem ao menos deixei que ela me visse. No caminho para casa, dois pensamentos me assaltavam: se ela ainda lembrava daquela nossa conversa comprometedora no corredor; e o que aconteceria conosco se estivéssemos juntos. E ainda no caminho, ao elaborar essa última hipótese e projetá-la para adiante na minha própria vida, tive toda a sorte de reações estranhas, principalmente quando os olhos se deixavam ficar por alguns instantes fixados nos casais de namorados, que, àquela altura, enchiam os vagões de metrô. Era uma mistura de decepção, alívio, tristeza. Muita tristeza por toda aquela energia adolescente desperdiçada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Portanto, quando me convidam para os reencontros da turma da faculdade, desconverso. Podem me achar mesquinho, egoísta ou seja lá o que for. Podem até me achar esnobe ou metido a besta. Fazer o que, amigos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tenho culpa se a Márcia Regina embarangou.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4084885292211299704-2487205097938486071?l=nelsonlourenco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/feeds/2487205097938486071/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4084885292211299704&amp;postID=2487205097938486071' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/2487205097938486071'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/2487205097938486071'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/2010/08/marcia-regina-embarangou.html' title='MÁRCIA REGINA EMBARANGOU'/><author><name>Nelson Lourenço</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04425784941732260792</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp0.blogger.com/_FEI36-7-VgQ/SAIJOhqKuMI/AAAAAAAAAAg/rm6VhM7V6W8/S220/Imagem+209.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4084885292211299704.post-7194630192016138053</id><published>2010-05-02T15:58:00.001-07:00</published><updated>2010-08-27T19:17:26.047-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Conto'/><title type='text'>TENTAÇÃO DOS IMORTAIS</title><content type='html'>Chá posto, vozes abafadas, eles se ajeitam às pressas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À mesa, apavorada, ela percebe: na farda impecável dele faltava o último botão.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4084885292211299704-7194630192016138053?l=nelsonlourenco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/feeds/7194630192016138053/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4084885292211299704&amp;postID=7194630192016138053' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/7194630192016138053'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/7194630192016138053'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/2010/05/tentacao-dos-imortais.html' title='TENTAÇÃO DOS IMORTAIS'/><author><name>Nelson Lourenço</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04425784941732260792</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp0.blogger.com/_FEI36-7-VgQ/SAIJOhqKuMI/AAAAAAAAAAg/rm6VhM7V6W8/S220/Imagem+209.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4084885292211299704.post-252189833506932756</id><published>2010-03-24T15:41:00.000-07:00</published><updated>2010-08-27T19:06:28.751-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Poesia'/><title type='text'>ARMISTÍCIO</title><content type='html'>Espera passar&lt;br /&gt;a cada sábia manhã&lt;br /&gt;o inverno rigoroso&lt;br /&gt;de tua destemperança&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aguarda defronte&lt;br /&gt;da vereda tranquila&lt;br /&gt;do tronco frondoso&lt;br /&gt;do teu cuidado jardim&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Exalta o sorriso&lt;br /&gt;evoca a doce insensatez&lt;br /&gt;íntegro estarás seguro&lt;br /&gt;do cativeiro de tua estupidez&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espera passar&lt;br /&gt;intolerância e inquietude&lt;br /&gt;espera chegar o tempo&lt;br /&gt;das canções&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4084885292211299704-252189833506932756?l=nelsonlourenco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/feeds/252189833506932756/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4084885292211299704&amp;postID=252189833506932756' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/252189833506932756'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/252189833506932756'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/2010/03/armisticio.html' title='ARMISTÍCIO'/><author><name>Nelson Lourenço</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04425784941732260792</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp0.blogger.com/_FEI36-7-VgQ/SAIJOhqKuMI/AAAAAAAAAAg/rm6VhM7V6W8/S220/Imagem+209.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4084885292211299704.post-5568769573193347612</id><published>2010-01-19T13:31:00.000-08:00</published><updated>2010-08-27T19:18:53.715-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Crônica'/><title type='text'>UM VERÃO RADIANTE</title><content type='html'>Será um verão radiante. Teremos celebrações acaloradas, grandes mesas repletas de comida, brindes aos quais responderemos sem pensar. O abraço pronto para ser deflagrado, lágrimas nos cantos dos olhos que teimaremos em esconder. Dormiremos abraçados a inebriantes lembranças, certos de que, ao despertar, não faltará amor.&lt;br /&gt;Teremos virtudes corrompidas, perigosas indulgências. Reputações cairão por terra, amizades serão destroçadas. Mas ainda assim prevalecerá o amor.&lt;br /&gt;E haverá gestos mesquinhos, ressentimentos familiares, mais uma briga com o vizinho, a recusa de uma esmola. E mesmo que não seja evidente, haverá amor.&lt;br /&gt;A mulher descobrirá que nutre o mais profundo desprezo pelo marido, enquanto ele leva pelo braço a criança embevecida até o mar. Contudo, ao ritmo das ondas que lamberão seus pés, não faltará amor.&lt;br /&gt;Alguém cometerá um crime hediondo, logo estampado com gosto nas capas dos jornais. Então homens e mulheres, cheios de rancor, clamarão por vingança e justiça cega para o assassino. Mas mesmo eles à noite em suas preces irão suplicar pelo amor.&lt;br /&gt;E os mesmos homens e mulheres pela manhã se acotovelarão entre os corredores de supermercados, em busca de promoções, da bebida barata, da carne tentadora. E sem que nenhuma prata que lhe seja pedida em troca, eles encontrarão, dissimulado entre gôndolas, o precioso amor.&lt;br /&gt;Um mendigo acordará sozinho diante do mar no dia de Ano Novo, em meio à sujeira de fogos e champanhes vagabundas na areia. E quem sabe, com sorte, ele ainda acreditará no amor.&lt;br /&gt;E ainda trôpegos pelas celebrações da véspera, os banhistas serão vítimas do arrastão, da fúria dos desajustados, que chegarão das favelas para tomarem seu quinhão. Mas logo baixada a poeira do pânico, entre os horrorizados corações alguém se levantará para dizer: “Vejam, ainda nos restou o amor.”&lt;br /&gt;Uma menina caminhará preocupada no calçadão, após ter sido embebedada e perdido a virgindade numa festa. Outra surgirá em sentido contrário, sonhando com o próximo encontro de uma nova paixão. E não mais as veremos. Só teremos a certeza de que logo elas encontrarão o aguardado amor, decerto toparão com ele ali mesmo, naquela tarde escaldante. Seremos profetas.&lt;br /&gt;E na presença dele, o amor, nós provaremos da compaixão de nós mesmos, nos reconhecendo tolos, imperfeitos, inapelavelmente incompletos. Sorveremos a cura efêmera e, ainda perplexos com o súbito renascer, na certeza da reconciliação com nossa paz de espírito, estaremos prontos para voltar, no alto da montanha, onde a vida na grande cidade nos aguarda, indiferente à nossa pretensa purificação.&lt;br /&gt;Será um verão glorioso, radiante e pleno de amor.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4084885292211299704-5568769573193347612?l=nelsonlourenco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/feeds/5568769573193347612/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4084885292211299704&amp;postID=5568769573193347612' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/5568769573193347612'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/5568769573193347612'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/2010/01/um-verao-radiante.html' title='UM VERÃO RADIANTE'/><author><name>Nelson Lourenço</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04425784941732260792</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp0.blogger.com/_FEI36-7-VgQ/SAIJOhqKuMI/AAAAAAAAAAg/rm6VhM7V6W8/S220/Imagem+209.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4084885292211299704.post-2480077223494774474</id><published>2009-11-24T07:53:00.000-08:00</published><updated>2009-11-24T08:00:30.150-08:00</updated><title type='text'>A Coroa de Flores</title><content type='html'>Os filhos chegariam cedo. Ele acordou como sempre, sem sofreguidão, um velho cansado da vida. Ao despertar estremunhado seria imposta, ele sabia, uma espera surda. Por uma viagem que ele não queria fazer.&lt;br /&gt;Amulher já ralhava com ele, sem motivo aparente. Estava órfão aos 65 anos, sem lembranças felizes, sem lágrimas a derramar. Como pode um homem não chorar a morte da mãe? Se soubesse a resposta, poderia replicar a mulher, como era de seu feitio. Mas não sabia, e aquela falta de emoção o deixava envergonhado. Agarrou-se ao portão da casa que caía aos pedaços e de lá não sairia, até que Pedro e Raul chegassem para levá-lo até o enterro.&lt;br /&gt;Enfim apontaram na ladeira, desviando o carro das crianças que disputavam uma ruidosa pelada. Pedro, o caçula, mal esperou ele destravar o portão. Com um cumprimento rápido, seguiu a passos largos pelo corredor que dava na cozinha da casa. Queria acabar logo com o protocolo familiar e seguir viagem. Raul, o primogênito, ficou ali em frente ao Celta prateado, manejando a chave do carro com ar superior. Nem se deu ao trabalho de cumprimentar a madrasta. A mulher tinha pouco apreço pelos dois recém-chegados e nisso ele, pesarosamente, com ela era obrigado a concordar.&lt;br /&gt;Era um velho dado a suspiros. Enquanto imaginava que seus próprios irmãos já iam longe na estrada, em suas espaçosas caminhonetes de cabine dupla, ele adivinhou, com desconforto, o que em breve aconteceria. Os irmãos moravam no mesmo bairro, a dois quarteirões de distância. Tinham combinado saírem logo cedo e já deviam estar em Campinas, onde a mãe morrera. Ao convite para se juntar à pequena comitiva, ele respondeu, sem contundência, que era melhor seguir com os filhos para o funeral. Sujeito orgulhoso, soturno e disperso, ganhara a fama de péssima companhia para os sobrinhos vitaminados, cheios de energia. Ele estava mesmo enorme e um tanto devagar. Corpulento demais para se espremer no banco de trás daquele carro apertado. E no entanto foi o lugar que os filhos lhe ofereceram, como se o pai fosse um estranho. Sem remédio, suspirou resignado e embarcou no carro, com uma certa dificuldade. Notou, sem surpresa, que a mulher não se dera ao trabalho de vir se despedir.&lt;br /&gt;Como se fosse um guia de viagem, Pedro emendava números. A avó quase chegara aos 100 anos. E o percurso até Campinas seria de mais ou menos 100 quilômetros. Depois, o silêncio. Raul majestoso, sem pressa, preocupado apenas com o carro recém-financiado, primeira vez que tomava a estrada com sua preciosidade. Ainda sem estéreo, apenas o zumbido seco do motor amaciando. Pelo menos os carros dos irmãos tinham som, murmurou o velho para si mesmo. Mas ele também não suportava os irmãos.&lt;br /&gt;Teria a velha mãe recuperado lucidez suficiente para avaliar filho por filho antes de morrer?, ele pensou. No caso dela, nove crias, nove vidas que seguiram diferentes destinos. A mãe andava decrépita nos últimos anos. Visitá-la era uma tortura, diziam os irmãos, mas para ele valia a pena conversar com a distinta senhora. As lembranças dela vinham em relances, sem aviso, e quase sempre eram episódios perdidos da infância de toda a prole. A porteira que precisava ficar sempre fechada, para não perderem a vaca Branquinha. A jabuticabeira dando cada vez mais fruto, o cheiro de pão caseiro, o queijo coalho assado pela manhã (ela sabia o ponto certo que cada filho gostava). A mãe sempre benevolente, sempre disposta.  &lt;br /&gt;Olhando agora para seus próprios filhos, Raul e Pedro, ele ficou imaginando se não havia falhado com eles. Se não os furtara do mais básico amor. Mas então lembrou que os irmãos que viviam perto dele eram bem a imagem dos filhos, sem paixões, destituídos de qualquer sinal de nobreza. Nada podia levar a crer que o amor recebido proporcionaria seres humanos melhores. Sobrepujado no seu canto, ele suspirou, o coração compungido pela triste descoberta daquela manhã.&lt;br /&gt;Sem paradas, devido ao atraso, chegaram à residência da irmã, onde a mãe viveu seus últimos dias. Raquel, sua sobrinha adolescente, tinha ficado para trás, ajeitando a casa onde a maioria viria almoçar depois do enterro. Saiu às pressas pelo portão estreito e, agradecendo a carona, foi logo dando instruções sobre o caminho para Raul. Acomodou-se no banco de trás, sem cerimônias, o olhar atento e simpático voltado para ele ali, encolhido no banco traseiro. Foi como se uma brisa entrasse no carro e dissipasse toda a névoa.&lt;br /&gt;Ele aspirou o perfume da sobrinha, como animal enjaulado. A garota tinha a pele quase escura, sedosa e brilhante. Os cabelos encaracolados caíam sob os ombros e adornavam o rosto límpido, de destacada beleza. Levemente constrangida, Raquel desviou sua atenção para os primos, como quem precisa dar conta de outros afazeres após ter limpado a casa. Seguiu-se uma conversa curta entre os três, sem animação, enquanto o velho retornava ao seu mundo de pensamentos tortuosos. O Celta cheirava a detergente, teria Raul se dado ao luxo de lavar o carro?&lt;br /&gt;Como se ouvisse os pensamentos do pai, o filho acelerou para que eles avistassem, ao longe, o cemitério onde a família havia comprado o jazigo. Caberia à matriarca ter a honra de inaugurá-lo.&lt;br /&gt;Assim que estacionaram, Raquel o puxou pela mão: &lt;br /&gt;- Vem ver a vó, tio.&lt;br /&gt;Ela praticamente o arrastou até onde o corpo jazia, em um salão austero. No caminho, identificou alguns rostos conhecidos, que não via há tempos. Os irmãos do Mato Grosso, do Paraná, até mesmo gente vinda de Rondônia. E finalmente a mãe.&lt;br /&gt;Estava cheia daquela beleza triste que ela tinha antes mesmo de se tornar um cadáver. A cabeça levemente desproporcional, o nariz cheio de uma pasta viscosa. Estranhamente se fixou naquele ponto do rosto, bem em cima da boca, como se esperasse que ela voltasse a falar de caminhadas até a porteira e da vaca Branquinha. Em vez disso, ouviu o soluço de Raquel, que começava a chorar.&lt;br /&gt;A garota apertou sua mão e ele a puxou de encontro ao seu peito. Sim, era doce aquele perfume. Ele maneou levemente a cabeça para ver a reação dos outros ao redor, Pedro e Raul ali bem em frente, outros ao seu lado, uma fileira de cadeiras ocupadas por gente de preto mais adiante. Mas ninguém parecia desconfiar do que se passava com ele. Era apenas um tio amparando a sobrinha desconsolada. Nem mesmo a sombra serena da mãe podia fazer ele deixar de dar seu mais longo suspiro, que nada tinha de compaixão ou tristeza. Desejava Raquel e queria prolongar aquele momento, desfrutar de algo que ele ansiava e era puro.&lt;br /&gt;Súbito, porém, desgarrou-se da menina e a encarou, mirando diretamente aqueles belos olhos negros lacrimenjantes, dois olhos que agora faiscavam diante do seu próprio olhar horrorizado. Dele emanava um estranhamento grande o bastante para ultrapassar os ombros bem-feitos de Raquel, tomando de assalto o salão onde a mãe repousava. A vergonha estampada no rosto. Queria fugir e se refugiar do semblante atônito da sobrinha, mas não tinha forças, estava imobilizado pela dor. Foi preciso que Raul viesse em seu socorro.&lt;br /&gt;- Vamos pai. Vem sentar comigo um pouco lá fora.&lt;br /&gt;Raul, o filho mais velho. O primeiro que colocara no mundo, o primeiro a sofrer com a sua incapacidade de amar. O que ele ainda iria viver? E Pedro, tão ínfimo em sua busca pelo o que é estudado e comum. Algum deles ainda poderia amar uma mulher como Raquel, fazê-la alcançar a felicidade? Porque ele mesmo, animal acuado, sentia-se dobrado pela vida. No fundo, jamais pôde aspirar a tal regalia. A vergonha, o peso de uma existência desperdiçada. Era apenas mais um bruto, como todos eles. Um bruto que destrói coisas belas.&lt;br /&gt;– Sou só um velho – ele começou a soluçar, inconsolável – Um velho é o que eu sou.&lt;br /&gt;Raul se esforçava para animá-lo, mas enquanto balbuciava palavras de conforto, Pedro chegou para consultar o pai. Corria uma coleta para comprar uma nova coroa de flores, maior e mais bonita. E como eles não haviam colaborado com nada para o enterro, era justo que dessem algum dinheiro a mais dessa vez.&lt;br /&gt;– Só que estou achando duzentos reais um bocado de grana. Acho que o tio Jorge está querendo faturar uns trocados com essa vaquinha.&lt;br /&gt;Mais uma afronta, o velho pensou. Para a sua velha mãe, para eles mesmos. Tinha de admitir que o irmão era capaz de fazer tal coisa, mas o fato de que os filhos imaginassem o mesmo que ele só aumentava a torpeza daquele momento. “São mesmo meus filhos, isso não posso negar.”&lt;br /&gt;– Toma aqui, leva lá para o seu tio.&lt;br /&gt;– Tem muito dinheiro aqui, pai.&lt;br /&gt;– Não interessa, faz o que eu tô falando. Compra a coroa mais bonita que tiver.&lt;br /&gt;Desvencilhou-se dos dois e, suspirando como nunca, voltou ao salão.&lt;br /&gt;Raquel estava agora agarrada a uma mulher que ele mal conhecia, as duas de pé, imóveis, observando a defunta. Por longos minutos ele ficou ali, sem reação, num devaneio, apenas vislumbrando quem chegava e partia naquela contemplação muda do corpo de sua mãe. Então, sem que ninguém percebesse que se aproximava, uma mosca pousou bem no nariz da pranteada. Deslizou suavemente pela pasta de cânfora que saltava das ventas infladas da falecida. O velho, diante da mãe ultrajada em seu próprio enterro, não esboçou reação. Só pensou afinal que a vida é uma piada sem graça, que demora para ser contada. E ali estava o final da piada de sua mãe, o final dele mesmo, que já sentia próximo.&lt;br /&gt;Só a mosca, ousada e indecorosa no nariz da morta, é que podia sorrir.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4084885292211299704-2480077223494774474?l=nelsonlourenco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/feeds/2480077223494774474/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4084885292211299704&amp;postID=2480077223494774474' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/2480077223494774474'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/2480077223494774474'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/2009/11/coroa-de-flores.html' title='A Coroa de Flores'/><author><name>Nelson Lourenço</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04425784941732260792</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp0.blogger.com/_FEI36-7-VgQ/SAIJOhqKuMI/AAAAAAAAAAg/rm6VhM7V6W8/S220/Imagem+209.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4084885292211299704.post-1619821513196038163</id><published>2009-10-23T03:43:00.000-07:00</published><updated>2009-10-23T03:45:39.865-07:00</updated><title type='text'>Fique por perto quando escurecer</title><content type='html'>Hoje meu irmão Luca faz aniversário, e minha mãe mandou fazer o mesmo bolo do ano passado. Chocolate, com bastante cobertura. Mas dessa vez, pode apostar que a tevê não vem entrevistar o Luca, nem saber como a gente vai festejar o aniversário dele. Se vier, vão encontrar bolo de chocolate na mesa, e o primeiro pedaço vai ser meu.&lt;br /&gt;Foi sempre assim desde que o meu irmão começou a exigir festa de aniversário. Mamãe estranhou da primeira vez, mas não teve como negar o pedido. É normal. Os pais fazem qualquer coisa quando a gente está doente. E o Luca, coitado, sempre fraquinho. Tudo por causa da doença dele. Quando o Luca ainda era um bebê, os médicos disseram que nunca tinham visto um negócio daqueles. Sem poder comer nada, nem tomar leite, só se alimentar com suco de limão. Foi por isso que a tevê veio uma vez, no aniversário dele. E continuou vindo depois, várias vezes. Já me acostumei. Só acho um pouco chato no outro dia, quando as meninas da escola chegam todas curiosas e querem saber como foi, ou porque não foram me entrevistar. Alguém perguntou para o Luca como ele se sentia e ele respondeu: “Um ser humano vindo de outro planeta.” É mais ou menos o que eu sinto também, quando perguntam do meu irmão.&lt;br /&gt;Ele nasceu dois anos antes de mim e este é o décimo segundo aniversário dele. Acho que o primeiro que ele comemorou foi o de oito anos. Pelo o que me lembro, tinha um monte de velinhas em cima daquele bolo, e ele apagou todas de uma vez. Num sopro só. Mamãe e Papai correram para ver se ele estava bem, porque, para o Luca, aquele era um esforço muito grande. Mas ele só sorriu e pediu para Mamãe cortar o bolo. Depois virou para mim e me ofereceu a primeira fatia. Ninguém come muito nessas festas do Luca, porque as pessoas parecem meio culpadas de estarem comendo e ele ali, só tomando suco. O mesmo suco de sempre. Mas eu faço questão de me empanturrar de bolo nessa hora. Chego até a me lambuzar. O que as pessoas não entendem é que não se pode contrariar o aniversariante. O Luca terminou aquela sua primeira festa cansado como nunca, mas feliz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra coisa que ninguém vai saber são as brincadeiras inventadas pelo Luca. A diversão preferida da gente. Ele batizou nossas conversas sobre comida de “mastigadinha”. Criamos uma senha – “Vamos dar uma mastigadinha 9 – para começar a brincadeira. Papai uma vez se admirou com a risada do Luca depois que eu contei para ele como era a sensação de mastigar pipoca. Em quanto tempo você termina de lamber um pirulito 9 Como é o gosto de pizza  9  E churrasco 9 E a vitamina que o Papai toma antes de dormir 9 Guardo até hoje comigo a lista que a gente fez das coisas que o Luca ia dizendo que gostaria de comer, quando ficasse curado. Acho que a vitamina do Papai está em terceiro ou quarto lugar na preferência dele.&lt;br /&gt;Papai é sempre o mais nervoso da família. Ele trabalha muito e vive preocupado com tudo. Quando o assunto é o Luca então... A festa deste ano já foi o suficiente para estressar o Papai. Mamãe me contou que ele sempre foi assim, mas piorou muito antes de eu nascer. Ele achava que podia acontecer comigo o mesmo problema do Luca. E não adiantava os médicos dizerem que aquela era uma doença rara, e que era praticamente impossível que eu tivesse a mesma coisa. Ele continuou acreditando que algo errado poderia acontecer até o dia em que eu nasci.&lt;br /&gt;Mas Papai foi calmo o bastante para ensinar o Luca a ler e escrever. A escola só durou uma semana para o meu irmão. Foi o tempo em que o Luca se animou e pediu para Mamãe tirar o tubo do estômago dele, um trabalhão danado toda manhã, só para ele tentar assistir as aulas como um menino normal. Depois isso ele já não quis ir mais, e Mamãe e Papai resolveram que ele não precisava ir mais mesmo. Tudo por causa dos apelidos que começaram a inventar para o Luca. Fininho, Fantasma, Sombra, Palito, Caveirinha, Cabeção, Capacete. E o que ele mais detestou: Cadáver. Era muita judiação falar assim dele, então Papai e Mamãe deixaram Luca ficar em casa, em vez de sair para estudar. A única coisa que o meu irmão aprovou na escola eram as músicas que as crianças cantavam no pátio, antes de subir para a aula, Só mais tarde, quando eu entrei no mesmo colégio, é que eu entendi o que ele estava falando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois que eu fui para a escola e aprendi a ler, o Papai não precisou mais ensinar o Luca. Eu mesmo passei a contar para ele o que era preciso aprender, sempre depois da minha aula. Por sorte, ele seguiu o meu próprio gosto, então eu risquei Ciências e Matemática das nossas aulas particulares. Logo ele aprendeu a recitar o nome completo da Princesa Isabel, a saber quantas braçadas era preciso dar para atravessar o Canal da Mancha e como se falava “me passa o guardanapo” em cinco línguas diferentes. Ele começou a impressionar todo mundo com esse tipo de conhecimento, então eu fiquei orgulhosa. Descobri que tenho muito jeito para ensinar.&lt;br /&gt;Mamãe tentou acompanhar o Método Luca de Ensino, mas ela também está sempre ocupada, de um jeito ou de outro, e na maioria das vezes é por causa do meu irmão. Vejam só o trabalho que essa festa está dando, mas ela tira de letra. Mamãe aprendeu a dirigir depois de velha, só para levar o Luca até o hospital. Quando a tevê liga e quer entrevistar o Luca, é ela que combina as coisas. Uma vez convidaram a família toda para um programa de entrevistas, desses que passam na hora da novela, e que tem sempre um médico ou um advogado comentando a vida de outra pessoa. Mas Mamãe não deixou o Luca ir, nem ninguém. O Luca não reclamou, ele queria mesmo era ir na praia. Mamãe até deixou, mas ele ficou com medo de que os meninos o chamassem de Cadáver mais uma vez, por isso desistiu do passeio.  &lt;br /&gt;Eu me lembro da primeira vez em que ele apareceu na televisão. Eu era tão pequena que tiveram que me erguer para ver a tevê. Ainda sou baixinha para a minha idade, mas nunca quis crescer muito mesmo. A melhor fase da minha vida foi quando eu tinha o mesmo tamanho do Luca, mas durou pouco.&lt;br /&gt;Naquele dia, havia um monte de gente na nossa casa, incluindo o Vovô e a Vovó. Acho que o Luca moraria com o Vovô e a Vovó se pudesse, porque eles nunca olham feio para ninguém, muito menos para o Luca, e estão sempre fazendo uma bagunça danada quando encontram alguma criança. Foi o Vovô que descobriu que era possível colocar corante no suco do Luca, sem alterar a receita do médico. Precisavam ver a cara de satisfação dele na primeira vez que experimentou o suco especial da Mamãe na cor azul.&lt;br /&gt;Depois que o Luca apareceu pela primeira vez na televisão, começaram a mandar um monte de cartas para ele. Mamãe costumava ler as cartas, uma por uma, e depois ainda fazia um resumo dos melhores pedaços, a pedido do Luca. Só mais tarde é que eu fiquei encarregada de ler as cartas, mas chegou uma hora em que aquilo já não bastava para animar o Luca.&lt;br /&gt;Meu irmão andou muito triste no último ano. Um dia ele virou e disse: “As pessoas querem me conhecer, mas ficam paralisadas quando olham para mim.” Acho que foi nessa vez que eu prometi que nunca ia deixar alguém olhar feio para ele. Estaria sempre ao seu lado.&lt;br /&gt;Quando ele ficou bem doente, fazia de conta que estava morrendo, que estava ficando tudo escuro. “Por favor, fica comigo Amanda. Não me deixa sozinho no escuro”, ele falava, e eu apertava a mão dele bem forte.  O Luca não queria nem mais beber o suco de limão, então a Mamãe tinha que colocar gelo na boca dele, quando estava dormindo. E foi assim até depois do Natal, quando o Luca desobedeceu todo mundo e comeu uma coxa de peru. Naquele dia o Vovô e a Vovó vieram e saíram chorando do quarto do Luca, daí eu percebi que a coisa era séria. E quando ele se foi, eu não estava por perto, para cumprir minha promessa. Foi o pior Natal da minha vida.&lt;br /&gt;Mas estou melhor agora. Logo vamos cantar os parabéns. Papai ajeitou o retrato do Luca na sala, e o Vovô e a Vovó chegaram com um monte de presentes no porta-malas do carro. Mamãe preparou um jarro enorme com suco de limão e deixou na mesa, ao lado do copo do Luca, aquele que tem o Calvin fazendo careta, que ele tanto gostava. Ela disse que o Luca virou um anjo, e provavelmente está acompanhando tudo lá do céu.&lt;br /&gt;Tudo que ele sempre pediu na sua festa de aniversário.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4084885292211299704-1619821513196038163?l=nelsonlourenco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/feeds/1619821513196038163/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4084885292211299704&amp;postID=1619821513196038163' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/1619821513196038163'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/1619821513196038163'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/2009/10/fique-por-perto-quando-escurecer.html' title='Fique por perto quando escurecer'/><author><name>Nelson Lourenço</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04425784941732260792</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp0.blogger.com/_FEI36-7-VgQ/SAIJOhqKuMI/AAAAAAAAAAg/rm6VhM7V6W8/S220/Imagem+209.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4084885292211299704.post-7567626880592786016</id><published>2009-10-05T14:56:00.000-07:00</published><updated>2009-10-05T14:57:53.434-07:00</updated><title type='text'>BREVE RECOMPENSA</title><content type='html'>Cabelo espetado, rubro como fogo. O jaco puído que ganhou após uma bebedeira, na Santa Cecília. Jeans rasgados, camiseta preta sem mangas. Desce no metrô República, o passo largo e bêbado, assustando o povo. Mas logo esquecem sua esquisitice.&lt;br /&gt;Confere os anúncios, na Barão de Itapetininga. Alguém coça a cabeça ao seu lado. Ouve em silêncio, enquanto traga o último cigarro, comprado no camelô. "Nenhum emprego", o homem lamentava. "Cidade dos infernos."&lt;br /&gt;Era preciso um esforço atroz para não desistir. E a recompensa? Um posto em um escritório. Alex, o primo de visual careta, havia conseguido. Sentia falta dele. E pensava também em Vic. Seria mesmo aquele o nome dela?&lt;br /&gt;Com Alex, matava o tempo folheando revista no Anhangabaú. Nas lojas da Santa Efigênia. O velho dos vídeos pornôs. Nunca compravam nada, mas ele sempre tinha uma dica. "Essa faz de tudo", garantia, autoridade em sacanagem.&lt;br /&gt;Mulher pelada era na rua Aurora. Cinco paus cada, ficavam lá no fundo, longe do palco. Onde elas dançavam, o som no último volume. Depois, vinham conversar, pediam bebida. Dependiam daquilo para sobreviver. Mas eles não tinham dinheiro, e logo as mulheres se afastavam.&lt;br /&gt;Uma tarde, alguém se acomodou ao seu lado. Resto de dignidade no olhar, contou sobre o filho que a esperava em casa. A velha que a difamava e exigia aluguel na data combinada. Teve pena dela, mas não admitiu para o primo.&lt;br /&gt;Alex agora trabalha na Paulista. Será que ele sente falta do mate gelado, na São João? Do churrasco grego. O almoço barato na Rio Branco. Quando será que a fome iria apertar?&lt;br /&gt;Pensava em Vic. Vic do Butantã. Meio roqueira, meio princesa. Gostava de uma banda gótica. Como era mesmo o nome? Ele não lembrava. Só lembrava da capa do CD. Passos largos, a fivela do coturno soando contra a perna, rumou para a 24 de maio. Veria a capa do CD, refrescaria a memória.&lt;br /&gt;Na galeria, o sujeito já ia adiante, no corredor, quando deu meia volta. "Você é o cara", disse, tocando o ombro sob os cabelos cor de fogo. "É comigo, maluco?", respondeu. Era. "Topa ganhar cem paus?", perguntou o maluco.&lt;br /&gt;Levou-o até o estúdio, escondido na Boca. O cabeludo guiando-o entre as divisórias. Fotos por todo canto, até no chão. Jazz bands, mariachis, sertanejos. O maluco da galeria parecia orgulhoso de cada uma delas.&lt;br /&gt;A sessão começou e o fotógrafo de ar tristonho era exigente. Levou tempo, mas deu o trabalho por encerrado. Um mês depois, Alex riu ao ver aquele rosto numa coletânea de rock. O nariz, proeminente, tinha estilo.&lt;br /&gt;No final, o maluco o levou até a rua. Sujeito simpático. Estendeu um cigarro, enquanto passava por eles a garota, ainda jovem, balançando a cintura. "Faz strip no My Love", comentou o outro, de olho naquele rebolado. "Vê só que tesão. Ainda cato essa mina."&lt;br /&gt;Lembrou da mulher que conhecera na Aurora. E já não gostava tanto do maluco da galeria. Saiu andando sem se despedir, passos largos, atrás daquele CD. Do busão do Butantã.&lt;br /&gt;Antes, compraria um cigarro decente.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4084885292211299704-7567626880592786016?l=nelsonlourenco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/feeds/7567626880592786016/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4084885292211299704&amp;postID=7567626880592786016' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/7567626880592786016'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/7567626880592786016'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/2009/10/breve-recompensa.html' title='BREVE RECOMPENSA'/><author><name>Nelson Lourenço</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04425784941732260792</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp0.blogger.com/_FEI36-7-VgQ/SAIJOhqKuMI/AAAAAAAAAAg/rm6VhM7V6W8/S220/Imagem+209.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4084885292211299704.post-405013466709989463</id><published>2009-07-02T04:55:00.000-07:00</published><updated>2009-07-02T04:58:14.587-07:00</updated><title type='text'>CELEBRIDADE</title><content type='html'>“Como funciona a vida?” Ah, se ele pudesse saber...Mas ele não sabia। O menino era só pele, ossos e aquele sinal de interrogação permanente, estampado no rosto. De pouca conversa, mas dado às perguntas. “Lá vem o Mindinho”, diziam quando ele apontava, a cabeça redonda, negra e reluzente, na roda dos camelôs que vendiam DVD pirata, no topo da ladeira General Carneiro. Mindinho chegava encolhido, as mãos no bolso do casaco encardido e as pernas de fora, prontas para uma providencial disparada. Logo lascava a primeira pergunta:- Onde vai ser hoje?Depois ficava mudo, só imaginando o percurso que iria fazer se o rapa viesse naquele dia. Balbuciava as manchetes nas capas dos jornais na banca, enquanto alguém trazia café num copo plástico e um sanduíche de mortadela. “Toma aí Mindinho. Se os home aparecer, já sabe...”Disso ele sabia. O melhor aviãozinho que os camelôs poderiam ter. Do largo da Memória, onde dormia, até os limites do parque da Luz, não havia atalho que Mindinho não conhecia. O menino era uma ajuda e tanto para os negócios. Só deixava os camelôs nervosos quando, distraidamente, começava a fuçar nas pilhas de DVDs. Por precaução, escondiam os pornôs, mas Mindinho não queria ver mulher pelada. Gostava de comparar os nomes dos artistas nas capinhas dos filmes.À noite, não usava as pernas, e sim os braços. Costumava ajudar a descarregar equipamento de som nos fundos do Teatro Municipal. O encarregado sabia que os braços finos de Mindinho não eram grande coisa, mas tinha pena do menino. Deixava ele ficar por ali e de vez em quando dava uma ordem:- Ô Mindinho, vai chamar fulano. Depois traz aquela corda ali pra mim. A única recomendação era não dar as caras no teatro, e disso Mindinho se ressentia. Aguardava a vez em que pudesse entrar no teatro grandioso, não na platéia, mas como a atração principal. Porque Mindinho queria mesmo era ser artista e tirar férias do mundo. Pelo menos daquele em que ele vivia.&lt;br /&gt;Uma vez, voltando do teatro, Mindinho encontrou a cidade estava em festa। A música era tão alegre, tão convidativa. Virariam a noite naquela animação. Só o que Mindinho tinha a fazer era se misturar ao povo, ir de palco em palco ouvindo as canções. Bom para ele, que já sofria de insônia e muitas vezes não conseguia dormir. Mas o menino estava desorientado. Pensava no garoto, negro como ele, que já fazia filmes e dava entrevistas. Uma celebridade das capas de DVDs.“Por que alguns são escolhidos e outros não?”, Mindinho queria saber.Em vez de ir pela Barão de Itapetininga, pegou o caminho do viaduto do Chá. Viu as estátuas humanas, uma série delas, a fada, o arqueiro, o anjo. Reluzentes, brilhantes como nunca mais voltariam a ser. Turistas tiravam fotos, o ar gelado do Anhangabaú servindo como moldura. E lá embaixo o descampado onde horas antes Mindinho corria, os fiscais da prefeitura no seu encalço. Uma celebridade, isso sim ele deveria ser. “Menino, desce já daí”, disse a mulher, a única a perceber o movimento de Mindinho, já no parapeito do viaduto.Se ele pudesse acordar daquele sonho.Se ele pudesse voar...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4084885292211299704-405013466709989463?l=nelsonlourenco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/feeds/405013466709989463/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4084885292211299704&amp;postID=405013466709989463' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/405013466709989463'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/405013466709989463'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/2009/07/celebridade.html' title='CELEBRIDADE'/><author><name>Nelson Lourenço</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04425784941732260792</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp0.blogger.com/_FEI36-7-VgQ/SAIJOhqKuMI/AAAAAAAAAAg/rm6VhM7V6W8/S220/Imagem+209.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4084885292211299704.post-863904267625800641</id><published>2009-06-29T09:34:00.000-07:00</published><updated>2009-06-29T09:39:31.364-07:00</updated><title type='text'>LOBO CANSADO DE LEVAR CHAPÉU</title><content type='html'>Depois que o Lobo Mau foi solto, Chapeuzinho Vermelho resolveu ligar para ele e convidá-lo para uma balada. Era um luau de responsa que a Pequena Sereia estava organizando. Chapéu, não mais uma garotinha, chamou também toda a sua turma: a Bela Adormecida, Branca de Neve e a Cinderela. Todas ficaram na maior empolgação para ver de perto a pegada do Lobo – sempre a fim de comer uma donzela indefesa.&lt;br /&gt;O Lobo, porém, tava numa onda diferente e achou que aquela festa seria uma roubada. Na real, só pensava mesmo em trombar com a vovó, que ele comeu antes de ser enganado pela Chapéu. “Seria uma vibe manera”, ele pensou com seu único botão, enquanto completava, no estúdio de tatuagem, o desenho com a fuça dos três porquinhos que ele mandou fazer, logo depois que saiu da temida prisão do maravilhoso mundo das fábulas.&lt;br /&gt;O Lobo então descolou um béque e, depois de muito viajar, baixou no luau da Sereia. Colou no pico e logo cruzou Chapéu e a galera.&lt;br /&gt;- Tá sabendo do auê que tá rolando? O Joãozinho Pé-de-Feijão ficou com a Fada Madrinha. Parece que ele gosta de coroa.&lt;br /&gt;- Menina, e o penteado novo da Rapunzel? Gente, que é aquilo? Não tem parafina que dê jeito.&lt;br /&gt;“Véio, como essas minas são rasinhas”, pensou o Lobo. Até que Chapéu ficou só por alguns instantes, e ele não perdeu tempo. Tava fissurado na vovó.&lt;br /&gt;- Queria saber onde ela anda.&lt;br /&gt;- Só digo se você me mostrar para que servem esses dentes tão grandes. E dessa vez não vai rolar caçador na parada.&lt;br /&gt;O Lobo, enfurecido e lembrando dos maus bocados que passou na prisão, comeu a Chapéu, a Cinderela, a Branca de Neve e todas as outras donzelas que haviam no luau. Depois daquela festa, ficou conhecido apenas como o “Velho Lobo do Mar”.&lt;br /&gt;Mas, na real, o que queria mesmo era comer a vovó.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4084885292211299704-863904267625800641?l=nelsonlourenco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/feeds/863904267625800641/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4084885292211299704&amp;postID=863904267625800641' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/863904267625800641'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/863904267625800641'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/2009/06/chapeu.html' title='LOBO CANSADO DE LEVAR CHAPÉU'/><author><name>Nelson Lourenço</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04425784941732260792</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp0.blogger.com/_FEI36-7-VgQ/SAIJOhqKuMI/AAAAAAAAAAg/rm6VhM7V6W8/S220/Imagem+209.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4084885292211299704.post-7994990440428026326</id><published>2009-05-16T10:43:00.000-07:00</published><updated>2009-05-16T10:45:01.056-07:00</updated><title type='text'>O PREÇO DA RECONCILIAÇÃO</title><content type='html'>Sei muito bem o que é passar um fim de semana sem grana em São Paulo. Sem pelo menos uma onça no bolso (quem em sã consciência fica admirando nota de dinheiro e colocando apelido nelas? Traficantes? Políticos corruptos?). A situação é bem essa: No money, no fun.&lt;br /&gt;Conheço muitos estrangeiros que não se intimidam em afirmar aquilo que nós, paulistanos, fingimos não ver: nossa cidade é cara para se divertir. Os restaurantes, nosso orgulho, têm preços europeus. Os cinema, outrora acessíveis, tornaram-se um programa dispendioso (uma onça será suficiente apenas para seu ingresso, o da namorada, o estacionamento...e olhe lá!). O universo musical, conheço de perto. Com a desculpa de estarem perdendo dinheiro com a meia entrada, os empresários do show business elevam os preços dos ingressos às alturas (show do Kiss em São Paulo: meia entrada a 70 reais. Incrível, mas uma onça não é suficiente). O jeito é encontrar um bom livro, de preferência em um sebo. Mas eles fecham cedo no sábado, melhor correr e garantir um domingo de boa leitura.&lt;br /&gt;Sandro não era um estrangeiro, mas quase. Nasceu no Mato Grosso, viveu os melhores anos de sua vida no Rio, em Ipanema. Depois baixou em Sampa, como os cariocas gostam de dizer, mas nunca foi feliz por aqui. Na verdade, detestava São Paulo. A cidade era fria, opressiva. Aqui Sandro não ia a praia, não tomava o chope gelado na Pizzaria Guanabara com a sua galera. Solitário, lembrava a todo instante que tinha uma mãe doente e uma diferença irreconciliável com os irmãos lá na cidade natal dele.&lt;br /&gt;Encontrei-o nos bares de Moema, onde eu trabalhava na época, fizemos amizade. O dinheiro andava curto para nós dois, então o Sandro me convidou para dividir o apê que ele alugava na Maracatins, perto do Shopping Ibirapuera. Me instalei na sala e a nossa convivência durou uns três meses. Sandro era uma boa companhia, desde que o assunto da conversa não fosse São Paulo. Daí ele desembestava a falar mal da cidade, do povo, da dureza que era viver aqui. Felizmente, para essas situações, sempre havia a tevê, no caso, equipada com uma providencial gambiarra que nos permitia ver todos os jogos, de todos os campeonatos, mesmos aqueles do pay-per-view. Vascaíno, ele não perdia por nada as partidas do alvinegro carioca.&lt;br /&gt;O apartamento era ótimo. Andava três quarteirões, atravessando o shopping, e estava no trabalho. No caminho de volta, desviava da luxuosa área gastronômica e parava na banca de sucos que havia ali, num corredor lateral do shopping. Pedia um mix de frutas e aquele era meu jantar em época de vacas magras. Bons tempos aqueles.&lt;br /&gt;Outros momentos inesquecíveis aconteciam sempre na entrada do prédio, geralmente pela manhã. Mulheres cheirosas e superproduzidas, em seus jipões incrementados. Nunca sabia ao certo se estavam chegando da balada ou saindo para alguma reunião importante. Depois me interei de que o prédio era uma espécie de sede das operações daquelas garotas – acompanhantes de alto padrão. Um luxo para mim, me contentava com a visão esplendorosa, hollywoodiana, daquelas gatas fatais. Mas o Sandro sonhava com um encontro. Que nunca veio, pelo o que eu pude apurar.&lt;br /&gt;Em muitas ocasiões naqueles três meses, tive tempo de sobra para essas fantasias e outros pensamentos mais, digamos, transcendentais. Em um sábado, estava sozinho no apê, o Sandro fazendo plantão no hospital. Como numa canção dos Smiths, sentia-me insuportavelmente miserável para uma tarde ensolarada. Comecei a fuçar no apartamento, procurando algum livro. Mas o Sandro era fisioterapeuta e não muito chegado a uma leitura. Se dependesse de sua biblioteca particular, teria que me distrair com compêndios de anatomia.&lt;br /&gt;Resolvi vasculhar atrás da pequena estante da tevê e então encontrei uma bíblia de capa dura. Dentro, a surpresa: uma onça! Cinquenta paus esquecidos entre os provérbios e, surpresa ainda maior, um bilhete, meio amarfanhado, com linguagem bem mais rasteira que a dos velhos escribas das sagradas escrituras, clamando por desculpas. Nunca soube dizer qual teria sido a ligação entre a nota de 50 e aquela breve carta, acanhada súplica, perdão solenemente ignorado. Briga por grana? Um empréstimo que não foi pago? Fosse simples assim e o cinquentão, muito provavelmente, não teria sobrevivido para contar a história.&lt;br /&gt;Conclui que a mágoa ou a raiva foram de tamanha intensidade que a pessoa ferida preferiu esquecer o bilhete e a grana numa bíblia. Tão escondida estava que ficou adormecida, sabe-se lá por quanto tempo, até aquele sábado ensolarado. Pensando na história toda, fiquei um tanto triste, mas no final aliviado por ter encontrado a grana. Posso dizer que soube honrar a memória do ex-inquilino com uma boa dose de diversão.&lt;br /&gt;Pouco tempo depois, eu e meu amigo nos separamos. Nunca mais vi Sandro, nem tive notícias dele. Resolveu voltar para o Mato Grosso, em busca de uma reconciliação consigo mesmo.&lt;br /&gt;Tomara que a viagem tenha valido a pena.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4084885292211299704-7994990440428026326?l=nelsonlourenco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/feeds/7994990440428026326/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4084885292211299704&amp;postID=7994990440428026326' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/7994990440428026326'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/7994990440428026326'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/2009/05/o-preco-da-reconciliacao.html' title='O PREÇO DA RECONCILIAÇÃO'/><author><name>Nelson Lourenço</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04425784941732260792</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp0.blogger.com/_FEI36-7-VgQ/SAIJOhqKuMI/AAAAAAAAAAg/rm6VhM7V6W8/S220/Imagem+209.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4084885292211299704.post-4203392390311023975</id><published>2009-03-21T08:12:00.001-07:00</published><updated>2009-03-21T08:12:47.392-07:00</updated><title type='text'>A BELA JUNIE</title><content type='html'>Filme francês, estava passado batido nessa época de oscarizados(estava mesmo, demorei para postar este texto e agora, ao que tudo indica, é esperar o DVD...sorry). Uma amigo recomendou muito, então lá fui eu para o decadente Gemini conferir. É um cinema antigo, numa galeria da Paulista, perto da Prainha, lugar de muitas lembranças adolescentes. Quase todo filme que está prestes a sair de cartaz agora sobra no Gemini. Se cai nas graças do público, acaba permanecendo mais um tempo em exibição. E assim o cinemão (provavelmente o único que ainda tem poltronas de couro em São Paulo), vai resistindo. Melhor seria se tivesse uma escada rolante, pois os velhinhos que frequentam suas sessões sofrem com a sequência enorme de degraus.&lt;br /&gt;Mas o filme é um espanto, perturbador até. Se fosse americano, entraria naquele adorável gênero "corredor de colégio", que tanto me agrada. Curto bastante esses filmes com dramas típicos do high school americano: a garota deslocada que quer namorar o garotão popular, as cheerleaders, as fanfarras, os nerds, as professoras boazudas. A Bela Junie tem um punhado de personagens típicos do universo colegial. Há até o gay que não quer assumir e esse, no caso, vem a ser o primo da tal Junie, que se muda para a escola onde acontece a história, após a morte da mãe.&lt;br /&gt;São histórias e personagens secundários, pano de fundo para o retrato do trio amoroso que se forma entre Junie, o namorado Otto e o professor de italiano garanhão, que se apaixona e quer conquistar a bela. Otto diz a frase emblemática do filme - "Pensei que você fosse diferente" - e então...&lt;br /&gt;Assistam, vale a pena. Só posso dizer que há muitos que passam a vida inteira tentando encontrar alguém "diferente" e não conseguem. A Bela Junie é a musa desses amores perdidos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4084885292211299704-4203392390311023975?l=nelsonlourenco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/feeds/4203392390311023975/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4084885292211299704&amp;postID=4203392390311023975' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/4203392390311023975'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/4203392390311023975'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/2009/03/bela-junie.html' title='A BELA JUNIE'/><author><name>Nelson Lourenço</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04425784941732260792</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp0.blogger.com/_FEI36-7-VgQ/SAIJOhqKuMI/AAAAAAAAAAg/rm6VhM7V6W8/S220/Imagem+209.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4084885292211299704.post-5356336598563274270</id><published>2009-02-28T15:53:00.000-08:00</published><updated>2009-02-28T16:07:17.969-08:00</updated><title type='text'>MERGULHO NO LAGO VAZIO</title><content type='html'>Eis o verão que se despede, inóspito, esbravejante. Dias de mormaço e chuvas torrenciais, muita água na cidade, exceto no lago da Aclimação, que morreu por castigo dos céus. Secou para dar lugar a um lamaçal.  No fundo encontraram lixo acumulado ao longo de décadas, detritos que só os peixes, agora também mortos, podiam ver. Vozes oficiais dão conta porém que o lago ressuscitará.&lt;br /&gt;Como seria bom se nós pudéssemos, como o lago, nos despir de toda sujeira e então ressurgir imaculados, águas plácidas onde poderíamos verter novas paixões e esperanças. Contudo, a vida prossegue, sufocante como o verão que agora termina.&lt;br /&gt;O lago vazio e nossas ansiedades ficarão no abismo  da memória. Serão uma lembrança longínqua dessa tórrida e tempestuosa estação.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4084885292211299704-5356336598563274270?l=nelsonlourenco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/feeds/5356336598563274270/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4084885292211299704&amp;postID=5356336598563274270' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/5356336598563274270'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/5356336598563274270'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/2009/02/mergulho-no-lago-vazio.html' title='MERGULHO NO LAGO VAZIO'/><author><name>Nelson Lourenço</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04425784941732260792</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp0.blogger.com/_FEI36-7-VgQ/SAIJOhqKuMI/AAAAAAAAAAg/rm6VhM7V6W8/S220/Imagem+209.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4084885292211299704.post-6647499511114356202</id><published>2009-01-22T15:44:00.000-08:00</published><updated>2009-01-22T15:48:53.374-08:00</updated><title type='text'>FERIDAS DA FÉ</title><content type='html'>Noite de domingo, desaba o teto da igreja. Fico sozinho no meu canto, não tenho coragem de sair de casa e me juntar à multidão que se aglomera na esquina já tomada por repórteres, equipes inteiras de televisão. Apenas imagino o sofrimento que emana dos destroços, sob o zumbido dos helicópteros.&lt;br /&gt;No dia seguinte, ouço na rua as histórias de quem esteve – ou deveria ter estado – na igreja. Um deles, fiel convertido "do mundo", como ele mesmo se apresenta, garante que houve um milagre. Ficaria para o culto das sete, mas resolveu sair para fumar no intervalo. "Foi Jesus quem me salvou", diz ele. "Talvez tenha sido o cigarro, não Jesus", penso comigo mesmo. O homem me olha suplicante e eu apenas confirmo: "Foi mesmo um milagre". Impossível convencê-lo de que haveria outro motivo para ainda estar vivo.&lt;br /&gt;Mais adiante, uma mulher chorando me diz que estaria naquele domingo à noite na igreja, mas decidiu ir pela manhã, havia outros afazeres marcados para o resto do dia. Mais uma intervenção divina, outro escolhido. Quem não pereceu, nem ficou ferido, acredita que Deus operou em seu favor. Mas e os que não tiveram essa sorte? Por que Deus os escolheu?&lt;br /&gt;Evito pensamentos sombrios. Em meio ao infortúnio, mensagens de esperança. Os fiéis querem reconstruir logo o templo, demonstram desapego, solidariedade. A fé verdadeira não se abala com a queda de um telhado.&lt;br /&gt;Então observo um homem, um oriental de cabelos grisalhos, imóvel, concentrado. Permanece sentado em uma das cadeiras vermelhas que eram da igreja, mas que agora estão empilhadas no calçamento. Testemunhas mudas de uma noite de lamentações. O velho também está calado, absorto, totalmente indiferente ao burburinho ao seu redor. No que estaria pensando? Algo nele teria desabado também? Não há respostas aparentes. A tragédia vira show, espetáculo.&lt;br /&gt;Chego mais perto e percebo que o homem na verdade está rezando. Uma súplica quase imperceptível e, talvez por isso, comovente para quem o descobre, em meio à multidão . A igreja em ruínas de repente se transporta para a calçada daquela esquina do Cambuci. Ali o homem faz seu próprio culto e eleva sozinho sua voz ao céu.&lt;br /&gt;Súbito, me dá vontade de rezar também. E dizer para aquelas pessoas que acredito em milagres, em singelas manifestações de apreço pela vida humana que se perde e se renova. Renasce, enfim, a cada instante.&lt;br /&gt;(Crônica publicada na Gazeta da Aclimação em 22/01/09)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4084885292211299704-6647499511114356202?l=nelsonlourenco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/feeds/6647499511114356202/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4084885292211299704&amp;postID=6647499511114356202' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/6647499511114356202'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/6647499511114356202'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/2009/01/feridas-da-f.html' title='FERIDAS DA FÉ'/><author><name>Nelson Lourenço</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04425784941732260792</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp0.blogger.com/_FEI36-7-VgQ/SAIJOhqKuMI/AAAAAAAAAAg/rm6VhM7V6W8/S220/Imagem+209.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4084885292211299704.post-1881121821570052021</id><published>2009-01-16T07:17:00.000-08:00</published><updated>2009-01-16T07:20:51.781-08:00</updated><title type='text'>QUERO ESTAR PERDIDO</title><content type='html'>A primeira vez que vi um GPS, essa maquininha que os taxistas agora usam para encontrar endereço e rotas de acesso, foi na Alemanha. No começo, um teutônico motorista foi designado para fazer o transporte de nosso grupo, formado por brasileiros que estavam a trabalho em Frankfurt. O aparelho funcionava então perfeitamente. Mas depois, quando nós tivemos à disposição um carro alugado para andar por conta própria, o tal do GPS desandou.&lt;br /&gt;Não foi um raro defeito da tecnologia alemã, e sim problemas causados por operadores de primeira viagem. Sem conhecimento prévio da geringonça, vivíamos digitando o endereço errado ou simplesmente ignorando as indicações, em inglês, do GPS. “Turn around” ele insistia, a cada barbeiragem, ou seja, em tradução livre, “dê a volta enquanto é tempo, seu mané”. Adotamos o “turn around” como sinônimo de mancada durante o resto da viagem – não só no trânsito, mas em qualquer ocasião.&lt;br /&gt;Lembrei desse episódio, ocorrido há uns quatro ou cinco anos, ao ler sobre uma pesquisa que uma marca mundial de celulares divulgou, no final do ano passado, concluindo que o brasileiro está entre os povos mais perdidos do planeta. Bem que desconfiava. Todo mundo sabe que o brasileiro é teimoso, quase nunca admite que não tem a mínima noção de onde está quando isso acontece. Mas a pesquisa foi além e mostrou que somos também refratários à tecnologia que facilita a localização. Talvez seja por isso que o tal do GPS demorou tanto para chegar até aqui.&lt;br /&gt;Quem de nós nunca perdeu um compromisso por ter se perdido e não teve a coragem de admitir depois? Ou faltou a uma entrevista? Pior, deixou a namorada esperando. Com certeza, muitos já estiveram de carona em um carro e ficaram à mercê de um motorista sabichão, daqueles que sempre acreditam que sabem o caminho, mas que na maioria das vezes não fazem idéia de onde se enfiaram.&lt;br /&gt;O brasileiro é assim. Dia desses, seguindo uma orientação (adoramos dar dica de itinerário, não podemos ver outro brasileiro perdido), desci a escadaria da rua Batista do Carmo, aqui na Aclimação, e dei de cara com o parque. A rua se alongava à direita e à esquerda, e eu não sabia qual direção tomar. Queria atravessar a avenida Sangirardi e seguir a pé até a Vila Mariana. Segui o instinto sabichão, aquele GPS natural que o brasileiro possui, e virei à esquerda.&lt;br /&gt;Deu certo। Mas não seria de todo mal ter virado à direita. Provavelmente veria mais paisagens do parque, teria mais inspirações pelo caminho. Os alemães, inventores da autobahn, e os brasileiros mais sensatos, vão me achar um tolo, mas às vezes é ótimo estar perdido.&lt;br /&gt;(Crônica publicada na Gazeta da Aclimação em 15/01/2008)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4084885292211299704-1881121821570052021?l=nelsonlourenco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/feeds/1881121821570052021/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4084885292211299704&amp;postID=1881121821570052021' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/1881121821570052021'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/1881121821570052021'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/2009/01/quero-estar-perdido.html' title='QUERO ESTAR PERDIDO'/><author><name>Nelson Lourenço</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04425784941732260792</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp0.blogger.com/_FEI36-7-VgQ/SAIJOhqKuMI/AAAAAAAAAAg/rm6VhM7V6W8/S220/Imagem+209.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4084885292211299704.post-9116226781374668362</id><published>2009-01-12T12:35:00.000-08:00</published><updated>2009-01-12T12:37:12.916-08:00</updated><title type='text'>O ANO EM QUE NOS TORNAMOS ESCRITORES</title><content type='html'>Foi 2008, que já vai distante. Eu e mais um "bando de loucos", que se aventuraram como pioneiros em um curso de formação de escritores: Nanete, Olga, Claudia, João, Sady, Julio, Marcelo, Renato, Peterso, Bruno, Dulce, Lucinda, Teca, Eduardo, Luiz, Patrícia(s), Renata, Rui, gente nova que chegou, outros que foram e já voltaram.&lt;br /&gt;A todos aqueles que me deram o privilégio de acompanhar aqui as histórias inéditas que foram postadas, gostaria de adiantar que este blog vai mudar temporariamente de perfil. O tempo anda escasso para os contos, mas teremos comentários sempre atualizados sobre o universo que nos interessa: os livros (teremos também música e cinema, é verdade, que ninguém é de ferro, e ainda as crônicas, quando estas forem publicadas na Gazeta da Aclimação).&lt;br /&gt;Mas são eles, os livros – mais especificamente aqueles que levam nossos nomes na capa –, que perseguimos. Da minha parte, prossigo nessa jornada.&lt;br /&gt;Para todos, um feliz 2009 – o ano em que seremos cada vez mais escritores.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4084885292211299704-9116226781374668362?l=nelsonlourenco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/feeds/9116226781374668362/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4084885292211299704&amp;postID=9116226781374668362' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/9116226781374668362'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/9116226781374668362'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/2009/01/o-ano-em-que-nos-tornamos-escritores.html' title='O ANO EM QUE NOS TORNAMOS ESCRITORES'/><author><name>Nelson Lourenço</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04425784941732260792</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp0.blogger.com/_FEI36-7-VgQ/SAIJOhqKuMI/AAAAAAAAAAg/rm6VhM7V6W8/S220/Imagem+209.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4084885292211299704.post-1546225864263416451</id><published>2008-12-23T04:53:00.001-08:00</published><updated>2008-12-23T04:56:24.432-08:00</updated><title type='text'>O DILEMA DA CAIXINHA</title><content type='html'>Chega o Natal e elas se proliferam – as caixinhas. Grandes, enfeitadas, discretas, diminutas, onipresentes. Estão na portaria do prédio, nos restaurantes, no estacionamento. Quem decide o formato que devem ter? Imagino os funcionários se reunindo para deliberar: este ano vai ser maior, o pessoal está mais generoso. Ou então, provavelmente, uma voz mais lúcida recomenda caixinha menor, a crise está aí, difícil ignorar qualquer trocado, pouco sobra para gestos de desprendimento. Será mesmo? A marola da economia estremecendo o espírito do Natal?&lt;br /&gt;O fato é que as caixinhas já estão aí, silenciosas, intimidadoras, esperando a nossa manifestação de bom grado. Quase impossível ignorar seu apelo no bar em que tomo café todas as manhãs. O pão na chapa chega no capricho. O caixa sorri com mais intensidade, estimulado pela proximidade da caixinha, bem ali, ao alcance da mão. Daí você, sem perceber, já foi fisgado. Faço uma anotação mental que preciso reservar a caixinha dessa turma. Surge então o dilema: com quanto devo contribuir? Dez reais, vinte talvez? Missão complicada decifrar o suficiente para não parecer pão duro, nem perdulário.&lt;br /&gt;Peso as conseqüências. Se der pouco dinheiro, fico marcado como mau freguês, digo adeus ao chorinho no café. Caixinha gorda demais também pode ser perigoso. Podem achar que a grana está sobrando e não quero ser o culpado por uma alta de preços no boteco. Decido seguir a maioria para não passar vexame.&lt;br /&gt;No outro dia, aguardo alguém dar a caixinha para poder observar a reação do caixa. Mas ninguém se habilita. Cedo demais? E se ficar tarde depois? Um pensamento sombrio súbito me acomete. Se o dinheiro minguar após ter saldado as dívidas, terei que sacrificar a caixinha e, conseqüentemente, mudar de bar.&lt;br /&gt;Na manhã seguinte, saio de casa decidido, mas, depois, já alojado no balcão, hesito. Será que vão me notar, vão se lembrar depois que contribui, na hora da partilha? Porque se não for assim, todo o esforço terá sido em vão. Levanto enfim e me dirijo para o caixa com duas notas na mão. "Esta é para a caixinha" é a fala cuidadosamente ensaiada.&lt;br /&gt;Saio do bar aliviado। Tudo funcionou como previsto. Mas é difícil se livrar desse negócio de caixinha de Natal. Enquanto espero o semáforo liberar a travessia, já começo a calcular o valor mais apropriado para deixar o pessoal do condomínio feliz.&lt;br /&gt;(Crônica publicada na Gazeta da Aclimação em 18/12/2008)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4084885292211299704-1546225864263416451?l=nelsonlourenco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/feeds/1546225864263416451/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4084885292211299704&amp;postID=1546225864263416451' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/1546225864263416451'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/1546225864263416451'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/2008/12/o-dilema-da-caixinha.html' title='O DILEMA DA CAIXINHA'/><author><name>Nelson Lourenço</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04425784941732260792</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp0.blogger.com/_FEI36-7-VgQ/SAIJOhqKuMI/AAAAAAAAAAg/rm6VhM7V6W8/S220/Imagem+209.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4084885292211299704.post-2255241079479749591</id><published>2008-12-17T12:49:00.000-08:00</published><updated>2008-12-19T03:00:43.060-08:00</updated><title type='text'>O ALQUIMISTA</title><content type='html'>Naquela hora surda em que a noite se tornava definitivamente madrugada, o bar estaria cheio. Renan planejara uma visita rápida. Deixou seus solenes afazeres no hotel refinado em que trabalhava, nos Jardins, e rumou para o Bixiga.&lt;br /&gt;O lugar estava, como previra, apinhado de gente. Serpenteou pelo corredor fervilhante de casais dançando forró, um tanto apreensivo, como se lhe estudassem os movimentos. O cheiro de bebida e a névoa de cigarro eram intensos. Finalmente chegou ao balcão e por um segundo distraiu-se conferindo os rótulos das bebidas, as prateleiras atulhadas de garrafas pela metade. Um moço de uns vinte anos estava alojado entre elas e a bancada de madeira, o semblante cerrado pela concentração que teimava e não queria se firmar. Um jovem barman de mãos vacilantes. Havia ainda outro moço lavando pratos e ao seu lado o proprietário, um careca gorducho, que usava colete vermelho. O velho colete vermelho de sempre.&lt;br /&gt;- Mas veja só quem apareceu.&lt;br /&gt;- Oi Perninha - Renan respondeu. O apelido dele era Perninha porque havia vencido todos os campeonatos de forró do bairro, antes que deixasse a banha tomar conta da barriga.&lt;br /&gt;- Visitando nosso mafuá? - disse ele, zombeteiro.&lt;br /&gt;- Tô procurando o Veludo.&lt;br /&gt;- Mas que diabos você quer com ele agora?&lt;br /&gt;Renan esboçou sorriso, a contragosto. E se o velho Veludo não estivesse ali, como imaginava? Estaria em apuros, não podia voltar para o hotel de mãos abanando. Por um instante, perdeu o foco da conversa, imaginando o que aconteceria se aquela visita tivesse sido em vão.&lt;br /&gt;- Hotel de grã-fino.&lt;br /&gt;- O quê?&lt;br /&gt;Renan não ouvira o que Perninha estava dizendo.&lt;br /&gt;- O Veludo disse que você estava trabalhando num hotel de grã-fino, cheio de frescura. Até a piscina era vermelha.&lt;br /&gt;- Mas onde ele está afinal?&lt;br /&gt;- Lá atrás, na cozinha.&lt;br /&gt;Entrou com Perninha por uma porta. Conhecia bem o caminho.&lt;br /&gt;- Ele anda meio fraco pra bebida.&lt;br /&gt;- Quem? O Veludo? Você só pode estar brincando - Renan respondeu, um sopro de frescor na cara carrancuda.&lt;br /&gt;- Derruba uísque no chão, fica babando na mesa. E ultimamente deu de reclamar do barulho. Deixo ele aqui na cozinha, pelo menos ele fica sossegado até a hora de ir embora.&lt;br /&gt;Renan pensou que havia algo a ser admirado naquele gesto de Perninha. Um consideração surpreendente pelo amigo Veludo, que finalmente surgiu aos seus olhos, estranhamente rígido, adormecido sobre si mesmo em um cadeira puída. Por um instante, Renan ficou intrigado. E se estivesse morto?&lt;br /&gt;Era um homem magro, de rosto sofrido, bigodinho grisalho. Parecia ter sido assim a vida inteira, pelo menos para Renan. Quando Perninha o chamou, sacudindo-o pela gola do casaco, deu um salto. Quebrou o copo que estava com ele e o cheiro de uísque subiu até as narinas, acordando-o de vez. Ao ver Renan, arregalou os olhos, Rei Lear diante da prole mal-agradecida:&lt;br /&gt;- Você por aqui?&lt;br /&gt;Perninha percebeu a tensão no ar e calculadamente se abaixou para recolher o copo quebrado. Ficou observando do chão o encontro dos dois, o mestre abandonado diante de seu melhor discípulo.&lt;br /&gt;- Tô precisando de um favor.&lt;br /&gt;- Não acredito no que tô ouvindo.&lt;br /&gt;- O drinque que você preparou para a Madonna em 1993. Ela quer tomar o mesmo drinque de novo agora.&lt;br /&gt;- Eu não sei do que você está falando.&lt;br /&gt;- Sabe sim. Você preparou um drinque especial para ela, vivia me contando a história. Que ela te elogiou e tudo, mandou dizerem que era o melhor drinque que já havia tomado.&lt;br /&gt;- Não sei do que você tá falando. E é melhor você ir embora agora.&lt;br /&gt;Perninha estava de pé novamente ao lado de Renan. Agarrou o visitante pelas mãos e saiu às pressas ao lado dele.&lt;br /&gt;- Parece que o homem não está muito a fim de conversa.&lt;br /&gt;E não estava mesmo. Veludo perdeu-se na lembrança de um tempo em que se dedicara a Renan, ensinara-lhe os segredos das misturas etílicas que só ele conhecia. "Ah, a ingratidão", suspirou para o copo vazio e limpo que Perninha ainda teve o cuidado de lhe deixar para um novo trago. Empenhara-se de verdade com Renan. Ele ainda garoto, debruçado sobre o balcão, absorvendo ávido todos os truques do velho barman, macetes que fizeram a alegria de celebridades em hotéis de luxo. Depois deu as costas para Veludo, nunca mais voltou. Um ingrato, isso sim. A cantora famosa teria que desistir do drinque... ele teria que desistir do drinque.&lt;br /&gt;Mas por acaso não eram ingratos todos aqueles que tomavam suas criações e lhe davam as costas, para nunca mais voltar? Madonna e todas aquelas estrelas, políticos e figurões? Ou mesmo o bêbado anônimo, que nem mesmo guardaria na memória a cor do coquetel que Veludo lhe servira com ar circunspecto, néctar dos deuses para simples mortais? Se ele amava mesmo sua arte de alquimista, não deveria então revivê-la a qualquer momento, mesmo que isso se perdesse como uma gota do mais nobre limão mergulhada num destilado de terceira categoria?&lt;br /&gt;A cozinha de Perninha estava razoavelmente equipada, e ele encontrou o que queria. Depois voltou para o salão, trazendo cuidadosamente, num copo longo, o resultado de meia hora de trabalho. Queria que Perninha o provasse, mas acabou encontrando Renan ainda ali. Ensinava para o rapaz no balcão como se fazia um dry martini, a mão firme inclinando a garrafa de gim suavemente, como devia ser. Veludo quase chorou ao ver aquilo. Só não o fez porque iria estragar o drinque que havia preparado.&lt;br /&gt;- É ele? - perguntou Renan sem disfarçar a ansiedade, enquanto secava as mãos.&lt;br /&gt;- É sim. Foi difícil lembrar, mas finalmente consegui. A Madonna vai delirar.&lt;br /&gt;Renan provou o líquido flamejante.&lt;br /&gt;- Tem vodca? - ele perguntou, tentando adivinhar o que havia na mistura. Era uma mania da profissão.&lt;br /&gt;- E suco de tangerina natural, tônica, vermute. Faltou pingar um pouco disso - respondeu Veludo. E alcançou rápido com as mãos a garrafa de Cointreau, sem que o jovem barman, de volta aos seus afazeres, percebesse qualquer movimento.&lt;br /&gt;- Obrigado Veludo. Muito obrigado.&lt;br /&gt;Os dois se encararam por um instante e depois trocaram um abraço apertado. Perninha também parou para acompanhar a cena, comovido, e os três estiveram por instantes longe, muito longe da balbúrdia daquele mafuá.&lt;br /&gt;Depois Veludo se despediu rápido, que a madrugada já estava nos últimos estertores। Saiu apressado, antes mesmo de Renan. Gostava de comer pastel quentinho logo cedo, na banca que o japonês montava debaixo do viaduto da Treze de Maio.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4084885292211299704-2255241079479749591?l=nelsonlourenco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/feeds/2255241079479749591/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4084885292211299704&amp;postID=2255241079479749591' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/2255241079479749591'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/2255241079479749591'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/2008/12/o-alquimista.html' title='O ALQUIMISTA'/><author><name>Nelson Lourenço</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04425784941732260792</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp0.blogger.com/_FEI36-7-VgQ/SAIJOhqKuMI/AAAAAAAAAAg/rm6VhM7V6W8/S220/Imagem+209.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4084885292211299704.post-5575917865998141862</id><published>2008-12-02T12:53:00.000-08:00</published><updated>2008-12-02T12:55:00.842-08:00</updated><title type='text'>HOMEM-PLACA</title><content type='html'>O homem-placa estava de bobeira no viaduto do Chá, fazendo troça com os amigos, quando outro homem-placa lhe empurrou com força. Viu-se em pleno ar, desabando com placa e tudo rumo ao chão de granito do Anhangabaú. Num ato de desespero, estendeu os braços agarrados às placas e elas inesperadamente o salvaram. Eram como asas, e ele fazia ali, sem querer, seu vôo inaugural de celebridade, assunto principal no noticiário da tevê.&lt;br /&gt;Deixou a vida nas ruas e ganhou os ares. Primeiro achou que seria útil no trânsito. Ajudava velhinhas a atravessar a rua, fazia as vezes de ambulância, levava feridos até o hospital. As crianças apontavam: “homem-placa, homem placa”, e se abalavam para acompanhá-lo do chão, ele lá em cima encabulado em seu sonho de quem descobre novas proezas. Depois, mais confiante, voltou-se para missões mais arriscadas. Pairava sobre seqüestros, assaltos e tiroteios, pronto para o rasante salvador. Apenas na madrugada, saudoso de outros tempos, ousava descansar sentado no antigo letreiro do Mappin, ainda assim atento aos bêbados que deixavam os pés-sujos das redondezas.&lt;br /&gt;Numa tarde, em uma perseguição a um motoqueiro meliante, espatifou-se de encontro a um monte de entulho. Num salto, safou-se do pior, mas as placas ficaram inutilizadas. O prefeito logo acudiu, prometendo apurar quem eram os responsáveis pelo fatídico entulho. E anunciou que uma marca de refrigerantes patrocinaria, por fabulosa quantia, nova placa para o herói da cidade.&lt;br /&gt;Botaram data de inauguração, e o povo compareceu em peso ao Anhangabaú, ele vestido para a festa com as novas placas, tapinha de prefeito nas costas, atrapalhando a concentração. Terminadas as formalidades, saltou para o horizonte diante dele. Mas, para decepção de todos, não galgou o céu, nem mesmo planou suavemente, como costumava fazer. Veio abaixo trazendo anunciante novo nos ombros. Não fosse ter se agarradora a uma palmeira, teria se esborrachado num canteiro.&lt;br /&gt;O super homem-placa tornou-se um fiasco. Ninguém queria saber de um ex-herói. Quando andava na rua, olhavam-no com desprezo, soltavam desaforos. Um dia, quase foi linchado. Gritou por socorro e os outros homens-placa, por sorte, vieram lhe salvar. Eles o convenceram a voltar para o antigo emprego, esquecer aquela coisa de herói. Mas o dono das placas não quis saber de readmiti-lo. Não queria correr o risco de atrair a fúria do povo contra seus anúncios. Era herói, que voltasse a voar.&lt;br /&gt;Aquilo lhe serviu de inspiração. Não foi difícil recuperar a velha placa. O dono do ferro-velho ainda a guardava como suvenir. Durante toda a manhã, martelou sob a sombra da baixada do Glicério. Subiu até o viaduto, suspirou fundo e, um tanto temeroso, arremessou o próprio corpo na amplitude desolado sobre o Tamanduateí. Havia funcionado. Voava novamente com sua velha placa.&lt;br /&gt;Foi direto para o prédio da Barão de Itapetininga e atravessou a vidraça do terceiro andar. Deu de cara com o dono da loja de penhores, o homem que havia se recusado a lhe dar de volta o emprego. Exigiu que mostrasse todo o ouro que tivesse. Pesarosamente o cofre foi aberto. O homem-placa raspou ligeiro jóias, anéis e notas estrangeiras, antes de fugir vidraça afora.&lt;br /&gt;Na República, entre os mendigos que habitavam a praça, fez a partilha. Jogou do alto o ouro subtraído do patrão, em gestos teatrais. Depois deu as costas ao festim e sumiu para nunca mais ser visto. Mas os outros homens-placa garantem que ele ainda voa por aí, a palavra “ouro” gravada nas costas.&lt;br /&gt;(Uma versão curta deste conto foi publicada na Revista da Folha, em 23/11/08)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4084885292211299704-5575917865998141862?l=nelsonlourenco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/feeds/5575917865998141862/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4084885292211299704&amp;postID=5575917865998141862' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/5575917865998141862'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/5575917865998141862'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/2008/12/homem-placa.html' title='HOMEM-PLACA'/><author><name>Nelson Lourenço</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04425784941732260792</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp0.blogger.com/_FEI36-7-VgQ/SAIJOhqKuMI/AAAAAAAAAAg/rm6VhM7V6W8/S220/Imagem+209.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4084885292211299704.post-6834662157784535735</id><published>2008-11-14T07:32:00.000-08:00</published><updated>2008-11-14T07:33:49.861-08:00</updated><title type='text'>O CHAMADO</title><content type='html'>Precisava de um telefone público. Na esquina em frente ao Copan, perto de sua quitinete, tinha um orelhão que haveria de servir. Foi o primeiro de tantos que iria explorar.Encarou os adesivos que cobriam o fone. Uma profusão de nomes, demoníacos, convidativos, se espalhavam por todo o orelhão, como se fossem um obsceno papel de parede. Samanta, colegial iniciante. Luana, bunduda. Simone e Renata, dupla insaciável. Nicole, oral até o fim. Escolheu um deles e descobriu um mundo de possibilidades.- Oi amor – disse a voz sussurrante. Em cinco minutos de conversa, foi às alturas.Logo escolheu outro, e mais outro.- Hoje estamos sozinhas, eu e mais três amigas. Por que você não vem brincar com a gente?Ele não ia. Só gostava da conversa sacana. E dos anúncios: Tamara, coroa vadia. Keiko, massagem e algo a mais. Gabriela, mulata bombom, meiga e carinhosa. Chegava a acariciar o fone, quando encontrava uma dessas do outro lado da linha.Começou a ligar sempre que podia. Na hora do almoço, corria desabalado para o orelhão. O dono do restaurante que freqüentava começou a ficar desconfiado. Precisou se acudir com outros aparelhos, e ai de quem quisesse usar aquele telefone naquele dia. O homem de bons modos, agora um tarado convertido, chegava a rosnar para velhinhas, e ameaçava as crianças que vinham, por acaso, atrapalhar suas chamadas.Aos fins de semana, escolhia lugares diferentes para exercitar o vício. Brigadeiro com Paulista, Vila Mariana, Luz, Santa Cecília. Brigava por espaço com os mendigos da Praça Roosevelt. Onde houvesse um bom orelhão enfeitado com os recados de suas meninas, ele poderia estar, curvado sob a proteção do compensado, o indicador fazendo voltinhas no fio do aparelho, o rosto ora quase apoplético, ora prestes a ter um espasmo. Já tinha um repertório de respostas picantes, que prolongavam a conversa e faziam as mulheres soltar a imaginação. Gisele, a ninfomaníaca (“estou carente!”); Vivi, a ninfetinha (“quero dar pra você bem gostoso”); Paola, a devoradora (“me parte ao meio, sou sua cachorra”). Aquelas mulheres era agora sua diversão, sua ruína. Que quase veio no dia em que lhe pegaram no trabalho, ligando, num arroubo de insensatez, para um número suspeito.Precisava fazer alguma coisa urgentemente, alguma coisa que o livrasse daquele desatino. Achou que estaria curado se visse a mulher enquanto falasse com ela. Perderia o mistério e ele voltaria a ser o que era antes. Escolheu a recepcionista de olhar convidativo para lhe ajudar naquela missão. Estava tão obcecado que não percebeu que o episódio da ligação havia lhe rendido uma certa aura de homem chegado à safadeza. A recepcionista de belas formas se sentiu no dever de conferir se aquela súbita reputação seria mesmo justificada.Na quitinete quase sórdida, sentaram-se de frente, cada um com um celular. Ele teclou o número da amiga e a conversa começou:- Então gostosão, tá a fim de uma brincadeira – ela provocou.Ele permaneceu na dele, só respondeu:- É, vamos ver. Pode ser.Incentivada pelo inusitado da situação, a mulher continuou seu jogo, sedutora. Usou todas as armas e, impossível negar, começou a ficar excitada. Balançou a cabeça, tocou os ombros, manipulou o celular de um jeito lascivo e nada. Quando começou a molhar os lábios e salivar de excitação, o homem percebeu que estava curado.- Acho que deu – disse ele, aliviado. O encanto havia se dissipado. Ela começou a recolher suascoisas, o rosto carregado pela decepção.No caminho até o metrô, o homem estava exultante. Tinha conseguido se libertar daquele vício avassalador. A mulher estava em silêncio, muda diante da empolgação dele. Despediu-se um tanto tensa, e enquanto descia a escada rolante da 7 de abril, pensou que nunca mais aquele homem iria merecer um olhar seu. Ele ficou observando-a, satisfeito consigo mesmo, pela sua esperteza em ter lançado mão daquela estratégia.Não haveria mais ligações. Poderia fazer sexo de verdade agora. Era só encontrar uma mulher que estivesse a fim.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4084885292211299704-6834662157784535735?l=nelsonlourenco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/feeds/6834662157784535735/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4084885292211299704&amp;postID=6834662157784535735' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/6834662157784535735'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/6834662157784535735'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/2008/11/o-chamado.html' title='O CHAMADO'/><author><name>Nelson Lourenço</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04425784941732260792</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp0.blogger.com/_FEI36-7-VgQ/SAIJOhqKuMI/AAAAAAAAAAg/rm6VhM7V6W8/S220/Imagem+209.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4084885292211299704.post-6557234831630138623</id><published>2008-10-12T19:04:00.000-07:00</published><updated>2008-10-14T09:22:20.414-07:00</updated><title type='text'>A VITROLA</title><content type='html'>Foi em 1974 que a família decidiu vir para São Paulo. O menino, calado como ele só, ouviu o pai apregoar aos quatro cantos a estratégia da viagem: ficariam na casa de parentes. Só depois aconteceria a mudança definitiva. E logo ela veio, num sábado de verão se consumaria. O menino ganhou tarefas, a primeira afastar os cachorros, e a segunda cuidar da vitrola laranja, única preciosidade da família.&lt;br /&gt;O pai poupara economias, evitando a bebedeira no final da tarde com o mano mais velho. Recusava o convite, sempre sob o olhar de desprezo do tio. Só não se furtava de ralhar com o menino, única extensão de sua autoridade naquela casa de estranhos. Os primos, percebendo o campo aberto para suas artimanhas, culpavam o menino por tudo, da bicicleta que surgia quebrada ao arranhão que manchava o braço de sangue. A mãe, consciente de seus deveres educacionais, passava o corretivo no menino com a cinta que guardara no fundo da mala de roupa.&lt;br /&gt;Na véspera da mudança, o menino botou a vitrola para funcionar, após descobrir o esconderijo dos discos da família. Ouviu Fernando Mendes ("nunca teve amor, não sentiu o calor de alguém"), suspirou com Diana ("peço perdão mais uma vez, se compliquei sua vida") e arrematou com Ângelo Máximo ("ah...ah...ah...hoje é meu dia"). A tia reclamou do volume e o menino levou calado a derradeira surra de cinta. Como é quieto esse menino, a tia comentou.&lt;br /&gt;No dia seguinte, não havia cachorros para espantar. Acomodaram a vitrola laranja na carroceria, entre os estrados da cama, e o menino subiu no caminhão. Os pais se apertaram no banco da frente, ao lado do motorista.&lt;br /&gt;Numa longa subida da Vila Nhocuné, o menino saltou. Ficou olhando o caminhão se afastar lentamente, à espera de um aceno. Que não veio, afinal de contas. Então ele se despediu da vitrola laranja que aos poucos ia sumindo dos seus olhos, ladeira acima.&lt;br /&gt;Muito tempo depois, homem feito, ele ainda sentia falta daquela vitrola, única preciosidade da família.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4084885292211299704-6557234831630138623?l=nelsonlourenco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/feeds/6557234831630138623/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4084885292211299704&amp;postID=6557234831630138623' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/6557234831630138623'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/6557234831630138623'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/2008/10/vitrola.html' title='A VITROLA'/><author><name>Nelson Lourenço</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04425784941732260792</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp0.blogger.com/_FEI36-7-VgQ/SAIJOhqKuMI/AAAAAAAAAAg/rm6VhM7V6W8/S220/Imagem+209.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4084885292211299704.post-1092249815320503776</id><published>2008-10-10T09:22:00.000-07:00</published><updated>2008-10-10T09:29:53.844-07:00</updated><title type='text'>HORA DE DESPERTAR</title><content type='html'>Vai amiga, levanta, olha a hora. Hora de acordar, querida ouvinte. Hoje é seu dia. Dia da mulher bem-casada. Da mulher com família pra cuidar. Da mulher estressada-sem-saber-porquê. Da mulher que não chifra. É, você mesmo, amada ouvinte. Chega mais pertinho do rádio. Já foi acordar os anjinhos? Tem café pra passar? Não, amiga, esquece o café, deixa os pestinhas dormirem. Tem coisa bem pior bem aí do seu lado. É, aí, bem pertinho de você. Olha ao seu redor. Achou? Pois é, amiga, ele mesmo. O maridão. O infeliz, o perdido, o sacana que não te respeita. Há quanto tempo ele não te faz um carinho, hein, prezadíssima ouvinte? Será que ele não sabe que te faz sofrer? Hein, minha cara? Mas que beleza, não é mesmo? Dormindo o sono dos justos. O miserável, o sem-vergonha. Onde será que o vagabundo passou a noite? Ficou na farra e deixou filhos e mulher em casa. É, você mesmo, considerada ouvinte, a mulher desse traste. Mas hoje isso acaba. Porque hoje é o seu dia. O dia da mulher que não corneia. O dia da vingança.&lt;br /&gt;Tem que cortar o mal pela raiz, amiga. Mas tem que ser agora. Termina logo com esse sofrimento, minha cara. Faz o seguinte: vai até a cozinha e pega uma boa faca. Daquelas que ele faz questão de usar no churrasco com os amigos. Preparada? Respira fundo e vai então. Faz o que tem que ser feito, amiga. Você é poderosa. Mas não deixa o maridão acordar.&lt;br /&gt;E depois do serviço feito, ajeite tudo com uma embalagem Desterro. Porque a embalagem Desterro oferece este programa. Por que ela tem a qualidade que você precisa para qualquer tipo de embrulho.&lt;br /&gt;E porque você, mulher, merece o melhor.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4084885292211299704-1092249815320503776?l=nelsonlourenco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/feeds/1092249815320503776/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4084885292211299704&amp;postID=1092249815320503776' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/1092249815320503776'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/1092249815320503776'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/2008/10/hora-de-despertar.html' title='HORA DE DESPERTAR'/><author><name>Nelson Lourenço</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04425784941732260792</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp0.blogger.com/_FEI36-7-VgQ/SAIJOhqKuMI/AAAAAAAAAAg/rm6VhM7V6W8/S220/Imagem+209.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4084885292211299704.post-6074515601981292923</id><published>2008-10-01T09:29:00.000-07:00</published><updated>2008-10-01T09:41:01.156-07:00</updated><title type='text'>A VIDA FAZ SENTIDO</title><content type='html'>A última refeição mais ou menos decente que Genuíno tivera fora um mexido de macarrão. Lambeu os beiços ao lembrar dos restos cuidadosamente selecionados pelo seu chapa, agora garçom na cantina Bela Itália, nas entranhas do Bixiga. Isso tinha sido na terça-feira, na calada da noite. O amigo trouxe a travessa cheia de massa para os fundos do restaurante, a inscrição Bela Itália estampada no prato. Ficou com o nome da cantina gravado na cabeça.&lt;br /&gt;Agora era sábado, uma manhã límpida de outono, e Genuíno tinha fome. Muita fome. Não havia aparecido mais na cantina, apesar dos apelos do amigo quando se despediu. Não gostava de forçar a amizade logo de cara pedindo favores. Era de uma estirpe rara de mendigos. Andava altivo, orgulho no olhar apesar do terno roto, quase um farrapo que ele lavava no banheiro da Sé e botava pra secar no gramado diante da catedral. Mas agora era sábado, o estômago roncava. Naquela manhã ele pensou que só havia um destino possível: a casa do amigo Leon. &lt;br /&gt;Sábado. Deus descansou naquele sétimo dia. E era por isso que o sábado pairava sobre eles como uma maldição, Genuíno arrematava, sempre que Pirilo dizia aquele trecho das Escrituras. O amigo das ruas ficava ofendido. Por onde andaria agora? Aos sábados, Pirilo se mandava, sabe Deus onde iria comer. Genuíno sempre o convidava para as visitas ao apartamento de Leon, mas o cabeça-dura não gostava da conversa do anfitrião. &lt;br /&gt;Sábado era dureza para qualquer mendigo. As bocas de rango não funcionavam, não havia a sopa das Senhoras Católicas, nem a japonesa caridosa que distribuía pão com manteiga na praça Pérola Byington. Felizmente, para Genuíno, sempre havia a companhia de Leon.&lt;br /&gt;O velho andava abatido pela doença, encurralado pela solidão. Mas o semblante de galã de fotonovela ainda estava preservado. Um homem que conhecera princesas, flertara com herdeiras de sangue azul, desfrutara da amizade de magnatas e bon-vivants. Genuíno gostava de ombrear com Leon em discussões filosóficas, alegorias existenciais que só os dois compreendiam. Era o homem uma brincadeira de mau gosto de um ser superior? Estariam no mundo por algum motivo, uma obra divina que escapava a qualquer compreensão humana? Para onde iriam depois que tudo terminasse? Se Pirilo ouvisse aquleas discussões...&lt;br /&gt;Quando Leon se via em apuros no choque de idéias, procurava amenizar a conversa. Apelava para recordações de viagens, tema em que Genuíno não podia competir com ele. O mendigo nunca se aventurara para além do Parque Dom Pedro.&lt;br /&gt;Mas Genuíno também gostava das descrições do companheiro, era tão animador quanto investigar o sentido da vida. Paris, Monte Carlo, Estoril, lugares que Genuíno nunca iria conhecer. O amigo tinha corrido o mundo, astro de uma companhia teatral. Ainda suspirava, a cabeça nas nuvens como criança, quando se recordava da Itália.As paisagens ondulantes da Toscana, as ladeiras que avançavam sobre o Mediterrâneo, tesouros da Humanidade qie ps Césares haviam espalhado em suas conquistas. Genuíno gostava de ouvir. Até mesmo sonhva com o amigo, imaginando-se ao lado de Leon numa caminhada pelas ruas de Roma (Leon comentara sobre as fontes em que os turistas jogavam moedas, que sucesso não fariam esses monumentos entre os mendigos aqui no Brasil!).&lt;br /&gt;Depois, com o tempo, começou a desconfiar das histórias de Leon, de suas peregrinações. Sempre as mesmas lembranças, as mesmas conversas eivadas de encontros românticos, passeios furtivos com damas de refinada classe. Leon ainda era um ator, talvez representasse para Genuíno o papel de viajante. Suas aventuras poderiam não ter sido tão fulgurantes assim. Talvez nem mesmo tivesse conhecido a Itália, muito menos apertado a mão da princesa Grace. O velho Leon. Saciava a fome de Genuíno com suas histórias. &lt;br /&gt;Tão distraído estava que não notou Pirilo. Topou com ele, esbarrou no parceiro de albergue de tal forma que chegou a sentir pinicar a barba mal-feita do outro mendigo.&lt;br /&gt;- Tá fazendo o quê?&lt;br /&gt;- Esperando. A menina prometeu me dar uma fornada inteira de pão de queijo que passou do ponto.&lt;br /&gt;Então era aquilo. Almoço garantido. Genuíno olhou para a mocinha atarefada no balcão da lanchonete, depois para o rosto magro de Pirilo. &lt;br /&gt;- Prefiro a feijoada do Califórnia - disse ele, apontando para o restaurante de mesas na rua, do outro lado da calçada - Nem que seja só um restinho, um cheirinho do feijão.&lt;br /&gt;Pirilo coçou a cabeça.&lt;br /&gt;- O portuga não vai com a minha cara. Tem certeza que não quer um pão de queijo?&lt;br /&gt;- Pra falar a verdade, tô indo ver o Leon.&lt;br /&gt;- Ah, faça-me o favor. &lt;br /&gt;Pirilo voltou a se concentrar na moça do balcão. Como havia convidado Genuíno para o almoço, este se sentiu na obrigação de retribuir o gesto. Mas Pirilo já havia se decidido pelo pão de queijo. Não suportava o papo daquele ator. Genuíno pôs-se a caminho da casa de Leon. Deixou Pirilo à espreita do rango que havia descolado.&lt;br /&gt;O prédio de Leon ficava na avenida São Luís e era um condomínio que conservara sua elegância ao longo dos anos. Genuíno já havia se tornado conhecido do porteiro. &lt;br /&gt;- Seu Genuíno?&lt;br /&gt;- Pois não, seu Araújo.&lt;br /&gt;- Hoje o senhor não pode subir.&lt;br /&gt;Instinto de mendigo aguçado, olhou para suas próprias roupas ao ouvir aquilo. &lt;br /&gt;- Ah não, não é isso - desculpou-se Araújo. E então falou, de sopetão:&lt;br /&gt;- Seu Leon morreu na terça-feira. A filha veio e levou tudo do apartamento.&lt;br /&gt;Então era aquilo. Uma notícia tão inesperada. Genuíno sentiu um redemoinho no corpo e, situação agravada pela fome, deixou-se cair. Desabou no chão e o porteiro, atônito, teve que socorrê-lo:&lt;br /&gt;- Venha se sentar aqui.&lt;br /&gt;Um homem tão bom, ainda cheio de vida. Seu Araújo concordou. Tão terrível saber que não privariam mais daquela amizade. Seu Araújo concordou também. E ajuntou, enquanto Genuíno se quedava perplexo:&lt;br /&gt;- Ele deixou um pacote para o senhor.&lt;br /&gt;Foi até o balcão da portaria e trouxe o envelope pesado para Genuíno, que permanecia sentado no sofá confortável, sem esboçar reação.&lt;br /&gt;- A filha encontrou no meio das coisas dele.&lt;br /&gt;Genuíno apertou o embrulho. Eram livros. Rasgou o envelope, agora com pressa para conhecer a herança do amigo.&lt;br /&gt;Folheou o primeiro volume, um belo livro de paisagens da Itália. Poderia enfeitar qualquer mesa distinta. Mas o segundo é que tinha realmente valor: um álbum de retratos esmaecidos. A cada foto surgia a figura de um homem de feições modelares e dentes perfeitos. Um Leon moço, no auge da beleza, beijando a mão de mulheres glamurosas, ladeado de playboys em seus ternos impecáveis. Grace Kelly estava ali entre as celebridades, sorrindo e debochando de quem havia desconfiado das histórias do velho ator.&lt;br /&gt;Genuíno fechou o álbum, cerrou os olhos. Lembrou do amigo que nunca mais veria e percorreu com ele novamente os lugares queridos que guardara na memória durante todos esses anos. Então chorou uma lágrima forte, bruta como a existência de um mendigo. Sorvia enfim a última lição do amigo, aquela que Leon nunca soubera dizer. Só mesmo diante da morte é que a vida faz sentido.&lt;br /&gt;Deixou depressa o prédio e, num sebo, passou adiante o livro de figuras italianas, por um dinheiro que daria para comer durante a semana toda. Mas acabou rumando para o Califórnia, acomodou-se na mesa de toalhas verdes e pediu feijoada completa. Comeu com gosto redobrado e depois ficou folheando o álbum de fotos de Leon. Olhava para os restos no prato e continuava a pensar na vida, no amigo.&lt;br /&gt;Cada osso roído era uma revelação.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4084885292211299704-6074515601981292923?l=nelsonlourenco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/feeds/6074515601981292923/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4084885292211299704&amp;postID=6074515601981292923' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/6074515601981292923'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/6074515601981292923'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/2008/10/vida-faz-sentido.html' title='A VIDA FAZ SENTIDO'/><author><name>Nelson Lourenço</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04425784941732260792</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp0.blogger.com/_FEI36-7-VgQ/SAIJOhqKuMI/AAAAAAAAAAg/rm6VhM7V6W8/S220/Imagem+209.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4084885292211299704.post-3012438801183891444</id><published>2008-09-07T08:43:00.000-07:00</published><updated>2008-09-07T08:44:50.048-07:00</updated><title type='text'>O RUMO DAS COISAS</title><content type='html'>Acordou com a perna direita dolorida. Maldito Zecão, com aquele tamanho todo, deveria ter mais cuidado quando dividisse a bola com os mais novos. O pai iria perceber que ele estava mancando, logo na primeira entrega. Ele sempre percebia.&lt;br /&gt;Encontrou todos – o pai, a mãe, a irmã mais nova – já à mesa. Era sábado e o pai, um homem grandalhão e precocemente grisalho, costumava acordar ainda mais cedo, o mal-humor de sempre contrastando com a alegria da mãe, mulher franzina, sempre disposta e exalando confiança no mundo. A irmã – tão graciosa com seus cabelos longos negros, a pele sedosa e os olhos graúdos de jabuticaba – geralmente tinha cara de enfado ao amanhecer.&lt;br /&gt;Porém, tudo parecia do avesso naquela manhã. Sua mãe não sorriu, seu pai não mandou ele se apressar. E sua irmã parecia que havia passado a noite chorando. Pelo menos estava com os olhos bastante vermelhos. &lt;br /&gt;Foi manquitolando até a mesa – maldito Zecão e os meninos maiores, um dia ainda eles teriam o troco – sem que nenhum dos três percebesse. Quando se sentou, silenciosamente, encarou por instantes o olhar da irmã. Ela realmente estivera chorando – poderia apostar que não fazia muito tempo que aquilo havia acontecido. &lt;br /&gt;- Se apronta logo – disse o pai, no mesmo instante em que sua irmã desviava o olhar. Pronto, pensou, alguma coisa finalmente tinha que estar normal nessa casa. Ficou até um pouco satisfeito ao ouvir seu velho ralhando com ele. Mas logo o pai ajuntou:&lt;br /&gt;- Vamos ter que levar sua irmã na rodoviária.&lt;br /&gt;Era uma viagem inesperada. A rodoviária de Mogi ficava bem longe de Jundiapeba.&lt;br /&gt;- Não sabia que a Luci ia viajar. &lt;br /&gt;- Ela não vai - cortou seu pai, seco. &lt;br /&gt;- Sua irmã vai morar uns tempos com sua avó – completou a mãe, pesarosa. O pai a congelou no mesmo instante, com o olhar ainda mais duro do que de costume. A mãe deixou a mesa e o  menino não notou as lágrimas, porque estava de novo observando sua irmã. A infelicidade do menino aos sábados era grande, mas dessa vez ele não estava sozinho.&lt;br /&gt;O dia estava nublado. Quando chovia, não precisava entregar material de limpeza com o pai. Mas não estava preocupado com o tempo. Queria saber o que estava acontecendo com sua família. A mãe apertou Luci com força. As duas não puderam conter o choro. &lt;br /&gt;- Vamos embora – vociferou o pai, terminando com o abraço emocionado. Era uma despedida, e o menino não sabia ao certo o motivo daquilo tudo. Ficou olhando para a mãe encolhida, soluçante. Depois subiu na Kombi, entre sua irmã, que ainda acenava para a mãe, e o pai, já há algum tempo enfezado, empunhando o volante. A dor na perna já não o incomodava. Mas se pudesse escolher, não teria embarcado.&lt;br /&gt;Ele detestava aquela velha Kombi azul. Odiava o cheiro de desinfetante, as manchas de cândida no piso, os garrafões de amaciante empilhados a um canto. Mas, sobretudo, abominava ter que carregar aqueles vasilhames pela rua, enquanto seu pai anunciava o produto no alto-falante. &lt;br /&gt;- Olha a cândida, o desinfetante, amaciante. Olha o carro da limpeza – ele berrava.&lt;br /&gt;Das casas simples, amontoadas umas sobre as outras, as mulheres surgiam, filhos rondando, cães farejando o cheiro da Kombi. O itinerário era quase sempre o mesmo, entre ruas sujas e empoeiradas daquele subúrbio distante. Ele caminhava claudicante, invadia os quintais de cimento de reboco com os pesados garrafões. Da Kombi para o portão que se abria ou direto para a soleira da porta, sob a vigilância severa do pai, que mantinha as notas maiores no bolso, o menino com o dinheiro miúdo para o troco.&lt;br /&gt;Conhecia já toda a clientela, mas nunca estava à vontade. Para algumas, o pai abria concessão, deixava que acertassem a dívida depois. As mulheres sorriam satisfeitas. “Essa porcaria do desinfetante do pai deve ser entorpecente”, Luci costumava dizer. Mas ele achava que as mulheres simplesmente não queriam que a sujeira das ruas invadissem suas casas. De qualquer forma, nenhum sorriso era capaz de acabar com o sofrimento do menino. Queria mesmo era estar no campinho, debaixo das traves tortas de madeira. Nas mãos as luvas puídas de goleiro que já haviam sido de seu pai.&lt;br /&gt;- Sábado não é dia de vadiar pelo campinho – ele um dia sentenciou. &lt;br /&gt;Pior era quando encontrava um moleque da escola pelo caminho. Procurava não cruzar com nenhum deles quando estivesse trabalhando, mas às vezes não tinha jeito. Sempre havia alguém à espreita. Podia ser o Claudinho, dono da bola e neto da velha Zefa, que já havia prometido vingança aos meninos por causa de uma vidraça quebrada. Podia ser o Jacaré, o craque do time. E podia ser Zecão, que não respeitava nem goleiro, nem zagueiro com seu corpanzil. &lt;br /&gt;O dor na perna teimava, não queria passar de vez. O choro de Luci também. Na esquina, não muito longe de casa, ela apeou subitamente, aproveitando que o pai precisou dar passagem a um caminhão. &lt;br /&gt;- Onde você vai, menina? - ele gritou.&lt;br /&gt;- Eu volto já – ela respondeu, decidida.&lt;br /&gt;Enquanto o pai puxava o freio de mão da Kombi, Luci caminhou resolutamente até a casa e tocou com fúria a campainha. Era um sobrado amplo, que se destacava na paisagem. Todo mundo na família sabia quem morava ali. &lt;br /&gt;O pai estava imóvel. Havia descido da perua e agora assistia a filha brandindo escandalosamente aquela campainha.&lt;br /&gt;- Sei que você tá aí. Não vai aparecer não? Saía safado!&lt;br /&gt;Mas da casa não houve resposta, e a voz furiosa de Luci foi morrendo, era agora apenas um respirar ofegante. Quando o pai se aproximou, ela estava ajoelhada diante do portão:&lt;br /&gt;- O que vai ser de mim, pai? O que vai ser de mim? - ela dizia, num choro compulsivo, dilacerado. O pai, atônito, olhou para o menino desnorteado, as mãos inertes, vacilantes diante da filha. Foi então se aproximando. Acariciava sem jeito o rosto de Luci, mas estava sem saber o que dizer. Por fim falou, a voz embargada saindo aos poucos:&lt;br /&gt;- Não se preocupe Luci...meu neto...ele não precisa nascer assim...longe de casa.&lt;br /&gt;O pai curvou-se sobre Luci e se demorou ali com a filha, indiferente aos olhares de quem passava. Foram se afastando aos poucos da casa e voltaram para a Kombi. O menino estava sem reação. Sorriu para a irmã,.como se ela tivesse voltado de uma terra distante. Os dois amanheceram condenados e de repente, num gesto inesperado do pai, ambos conseguiam a libertação. A manhã de entregas estava perdida.&lt;br /&gt;Na volta, o pai quedou-se diante do campinho.&lt;br /&gt;- Vou deixar sua irmã em casa e a gente volta pra treinar umas defesas.&lt;br /&gt;Era a primeira vez que ele se animava a lhe ensinar os macetes de goleiro. Até Luci riu com o canto dos lábios. Naquela manhã, nada mais lhe surpreendia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4084885292211299704-3012438801183891444?l=nelsonlourenco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/feeds/3012438801183891444/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4084885292211299704&amp;postID=3012438801183891444' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/3012438801183891444'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/3012438801183891444'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/2008/09/o-rumo-das-coisas.html' title='O RUMO DAS COISAS'/><author><name>Nelson Lourenço</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04425784941732260792</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp0.blogger.com/_FEI36-7-VgQ/SAIJOhqKuMI/AAAAAAAAAAg/rm6VhM7V6W8/S220/Imagem+209.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4084885292211299704.post-3194583756775727472</id><published>2008-08-31T09:04:00.000-07:00</published><updated>2008-08-31T09:05:38.280-07:00</updated><title type='text'>AS AVES NO TETO DA IGREJA</title><content type='html'>- Pai, você não precisa se preocupar.&lt;br /&gt;Se soubessem o quanto aquela frase o irritava! Então agora ele não pode nem mais se preocupar com nada? Fossem outros os tempos, e não se sentisse ele já um tanto alquebrado pela idade, partiria para uma discussão acalorada com o filho que se atrevesse a desafiá-lo. Mas agora tinha a plena noção de que estava perto do fim. Não podia desperdiçar energia a cada contrariedade. &lt;br /&gt;- Posso ajudar a carregar essas caixas de frango pra você. Qualquer um pode fazer isso.&lt;br /&gt;- O frango tá congelado, pai. Sabe que vai fazer mal para a sua artrite. &lt;br /&gt;Era o filho mais zeloso. O único com paciência o bastante para levá-lo ao médico. Para isso, desviava do caminho das entregas que tinha para fazer. Naquela manhã, mesmo ele, manso, sempre munido de boa vontade, achou que o velho estava passando dos limites.  &lt;br /&gt;- Minhas mãos agora não valem nada, não é mesmo? Pois foi com elas que paguei sua faculdade.&lt;br /&gt;Deu um jeito de puxar a conversa para o terreno das qualificações acadêmicas. Sabia que aquele era o ponto fraco do filho. .&lt;br /&gt;- Não precisa ter diploma para ver que o senhor não está em condições de carregar peso – ele devolveu, um tanto irritado. O rosto inchado e balofo - “pare de abusar do frango”, o pai avisou – denunciava seu mal-estar. Havia se formado há dois anos em administração, mas conseguira apenas aquele emprego de entregador. E isso porque o pai, raspando as últimas economias, comprara aquela van.  &lt;br /&gt;- Nunca fugi do pesado – emendou o velho. Ficou emburrado, taciturno, a cara amarrada se fixando na paisagem lá fora. Por um momento emudeceu, os olhos por baixo dos óculos fitando os ônibus, as pessoas nos pontos, os pombos no fio da rede elétrica. Subitamente, despertou: &lt;br /&gt;- Toca pro largo do Belém, quero ver uma coisa.&lt;br /&gt;- Pai, isso não é um táxi. Além disso, a gente tá longe do largo. E o senhor está atrasado para a consulta.&lt;br /&gt;Mas não teve jeito. Osso duro de roer aquele velho. Filho nenhum era páreo para sua teimosia. &lt;br /&gt;Chegando ao largo, o filho estacionou perto da barraca de cachorro-quente. Intuitivamente, conhecendo seu pai, já sabia o que ele queria fazer: conferir como andavam seus antigos domínios. Observou a figura esguia do velho caminhando resoluto para a banca de cachorro quente. &lt;br /&gt;Quando vendeu o quiosque, deixou claras instruções para o novo dono, desde a temperatura da água até a quantidade exata de maionese que deveria passar em cada fatia do pão. “Nem mais, nem menos, esse é o segredo de quem quiser prosperar nesse ramo”, ele dizia&lt;br /&gt;Pois não é que o novo proprietário parecia muito contente e próspero? Era um homem de trinta e poucos anos, rotundo e baixinho, cabelo escorrido e seboso como uma salsicha recém-cozida. “Vamos ver como ele se sai dessa”, pensou o filho, já imaginando a cena que iria por vir.&lt;br /&gt;- Parece que você mudou de fornecedor, não? Essa salsicha está menor do que deveria. &lt;br /&gt;- É o mesmo que o senhor me indicou, seu Salomão.&lt;br /&gt;- E esses copos descartáveis? Que novidade é essa?&lt;br /&gt;- É para o refrigerante. Compro garrafas de dois litros e depois vendo no copo, assim fica mais barato. O pessoal gosta, porque gasta menos.&lt;br /&gt;- Hum...sei – tornou o velho. Estava um tanto surpreso com a engenhosidade daquele homenzinho sorridente. Nunca havia pensado naquele negócio dos copos de plástico. &lt;br /&gt;- Pai, o senhor vai chegar atrasado no médico – disse o filho, afoito para voltar ao seu itinerário original.&lt;br /&gt;Mas seu Salomão tinha mais um teste, o derradeiro e mais importante. &lt;br /&gt;- E esses pombos? Você não tá alimentando os pombos, está?&lt;br /&gt;O homem ficou sem-graça de repente. Sabia que o velho iria soltar os cachorros quando ouvisse a resposta:&lt;br /&gt;- O senhor me pegou.&lt;br /&gt;- Não falei que não era para alimentar os pombos? Não falei que eles trazem doença, atrapalham o freguês...&lt;br /&gt;- É, o senhor falou. Mas achei que umas migalhas de pão de vez em quando...&lt;br /&gt;- Achou, não é? E agora eles acostumaram.&lt;br /&gt;Não havia como se desculpar. Os pombos estavam ali, passeando entre os pés de Salomão, como prova do seu ponto de vista, sem saber a fúria que haveriam de despertar no velho dogueiro.&lt;br /&gt;- Lugar de pombo é no teto da igreja, não aqui embaixo.&lt;br /&gt;E dado o vaticínio certeiro, desferiu um chute no ar, não tão incisivo quanto seu discurso. As mãos cheias de artrite balançaram inúteis no ar.   &lt;br /&gt;- Vamos embora – ordenou, sem se voltar para o baixinho desmiolado. &lt;br /&gt;A viagem para ele estava perto do fim. Dispensou o médico, sob os protestes veementes do filho. &lt;br /&gt;De que importam os médicos, quando as aves passeiam impunes pelo chão?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4084885292211299704-3194583756775727472?l=nelsonlourenco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/feeds/3194583756775727472/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4084885292211299704&amp;postID=3194583756775727472' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/3194583756775727472'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/3194583756775727472'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/2008/08/as-aves-no-teto-da-igreja.html' title='AS AVES NO TETO DA IGREJA'/><author><name>Nelson Lourenço</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04425784941732260792</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp0.blogger.com/_FEI36-7-VgQ/SAIJOhqKuMI/AAAAAAAAAAg/rm6VhM7V6W8/S220/Imagem+209.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4084885292211299704.post-3448076393737974702</id><published>2008-08-05T16:44:00.000-07:00</published><updated>2008-08-05T16:47:55.119-07:00</updated><title type='text'>LUZ. SOMBRA E TREVAS</title><content type='html'>Luz foi quando Gabriele surgiu na vida de Tião. Ele andava triste, acanhado no seu quartinho. Uma noite subiu até o telhado da pizzaria e a conheceu. Ela era toda radiante e vermelha. Tião ficou apaixonado. Subia todos os dias ao telhado e conversava com sua muda paixão.  &lt;br /&gt;Sombra tinha sido a vida inteira de Tião. Numa noite fria de julho, contou tudo o que havia sofrido para Gabriele. Ela soube que a família dele vivia às cegas, menos Tião. Ele teve um pouco mais de sorte – ou azar, conforme pôde comprovar depois. Ao contrário do restante da prole de irmãos, Tião enxergava sombras. Vislumbrava vultos, cores que não conseguia distinguir. Nunca perdôou os pais, primos em primeiro grau. Gente sem discernimento, casaram e ainda desandarem a ter herdeiros. &lt;br /&gt;Seu velho pai vivia preocupado com Tião. Os irmãos achavam que aquelas discussões entre os dois só terminariam no dia em que Tião resolvesse sair de casa. E assim ele fez. Já estava cansado da existência pacata do interior. Sua única diversão era trabalhar de sol a sol, e seu única companhia era a enxada (agora tinha Gabriele, de brilho intenso, ele pensou, sem dar conta para ela do que ia na sua cabeça). &lt;br /&gt;Resolveu que era hora de começar vida nova na cidade grande. A raiva já havia consumido parte dos seus sonhos, quando Tião deixou aquele mundo obscuro no interior. "Ouvia falar muito de São Paulo. Peguei minhas trouxas e vim pra cá", contou ele, para sua Gabriele. &lt;br /&gt;Foram horas de viagem em um ônibus, sacolejando na estrada. O cansaço tomou conta de Tião logo no começo de sua aventura. Mas assim que chegou a São Paulo, ficou impressionado. O que mais lhe chamava a atenção era o movimento intenso da cidade. Tinha juventude e a cabeça cheia de alguns sonhos que haviam restado. Mas também tinha uma questão prática para resolver: encontrar um lugar para dormir (a luz rubra de Gabriele parecia brilhar com mais intensidade nesses momentos mais dramáticos da narrativa de Tião).&lt;br /&gt;Ela ficou sabendo que Tião viveu durante sete anos em uma associação de cegos na Mooca. Lá ele aprendeu a fazer vassouras. Não era remunerado, trabalhava em troca de moradia. Mais ou menos como agora, quando estava vivendo de favor nos fundos da pizzaria.&lt;br /&gt;“Um dia eu comecei a ganhar dinheiro", ele fez questão de lembrar. Só não disse, naquele momento, que logo perderia tudo no jogo. Não queria que Gabriele achasse ele um fraco.&lt;br /&gt;Tião passou a vender as vassouras e rodos que fazia de porta em porta, cada dia em um bairro diferente. Foi conhecendo um pouco mais daquela cidade grande que havia lhe acolhido. Carros, buzinas e pessoas por todos os cantos. Gente que mal ele podia enxergar. &lt;br /&gt;"Eu me perguntava: Será que esta é a cidade certa?" Tomou fôlego e não esperou Gabriele dizer nada. Continuou com sua história. Ia de um lugar para o outro, com as vassouras a tiracolo. Teimoso, deixou de lado as divagações à medida que desenvolvia a agilidade típica de um vendedor ambulante. Seu motor eram as pernas firmes de lavrador; sua direção, a bengala; e o combustível era sua força de vontade. Havia muito ainda a conquistar. Só aquela solidão o incomodava. "Ainda bem que agora não estou mais sozinho", ele pensou, os olhos vítreos fixos na direção de Gabriele.&lt;br /&gt;Tião teve pressa, precisava de mais dinheiro para melhorar de vida. Quis acelerar as coisas. Caiu na ilusão do jogo. Com o pouco que ganhava, comprava bilhetes de loteria e apostava no jogo do bicho. Logo veio o prejuízo, mas, teimoso que nem ele só, ainda persistiu. "Achei que ganhar na loteria era meu futuro. Não pensava em mais nada, só em jogar", confidenciou, os olhos vítreos mareados de lágrimas.&lt;br /&gt;Mas ganhar na loteria foi algo que nunca aconteceu. A vida continuou dura para Tião, e a solidão, a mais ameaçadora das sombras, continuava rondando. Arranjaram aquele quarto e ele, quase cego em sua teimosia, subiu no telhado da pizzaria na sua primeira noite para gritar: "As coisas estão melhorando, seus imbecis". Esclareceu para Gabriele que fora apenas um desabafo e, de qualquer forma, ninguém naquela cidade imensa deveria ter lhe ouvido.&lt;br /&gt;Foi só Tião virar as costas depois do seu berro para descobrir que, uma vez afinal, estava certo. Encontrara Gabriele, e foi como se Deus dissesse só para ele: "Que se faça a luz". &lt;br /&gt;O que Tião não queria admitir, teimoso como nunca se viu, é que Gabriele era só a parte de baixo de um letreiro de neón. Há muito tempo o “Pizzaria” havia se apagado e o dono, sem dinheiro para reformas, deixou o “Gabriele” aceso sozinho, noite após noite. Um letreiro em vermelho. O nome mais lindo do mundo para Tião.  &lt;br /&gt;Mas a Pizzaria Gabriele não prosperava muito e um dia o dono vendeu o lugar. À noite, quando Tião apareceu para cortejar sua amada, ela não estava mais lá. Foram enfim as trevas, a profunda escuridão que ele tanto temia.       &lt;br /&gt;No dia seguinte, Tião entrou no que havia sido o forno da pizzaria. Pensou em usar a lenha que sobrara e se imolar ali mesmo. Mas, num último gesto de teimosia, abandonou aquele lugar onde tinha chegado o mais perto que se lembrava da felicidade e se deixou levar pelo caminho. Morreu atropelado por uma pick up de vidro fumê. Num último suspiro, o motorista que foi lhe acudir ouviu dele o nome daquela que fora a sua única amada e confidente.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4084885292211299704-3448076393737974702?l=nelsonlourenco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/feeds/3448076393737974702/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4084885292211299704&amp;postID=3448076393737974702' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/3448076393737974702'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/3448076393737974702'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/2008/08/luz-sombra-e-trevas.html' title='LUZ. SOMBRA E TREVAS'/><author><name>Nelson Lourenço</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04425784941732260792</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp0.blogger.com/_FEI36-7-VgQ/SAIJOhqKuMI/AAAAAAAAAAg/rm6VhM7V6W8/S220/Imagem+209.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4084885292211299704.post-2142488522351742694</id><published>2008-07-26T16:47:00.000-07:00</published><updated>2008-07-26T16:49:13.990-07:00</updated><title type='text'>FUNDO DE GARRAFA</title><content type='html'>Um lance de escada perfeito. Reservado, longe o bastante da balbúrdia da avenida Paulista, mas com uma visão privilegiada. Emílio tomou posse daquele canto e começou a esperar. Ônibus,táxis, executivos apressados. Todos correm, andam num ritmo caótico, traçando sinuosas evoluções no asfalto manchado pela faixa de pedestres. "Para onde estão indo?", ele se perguntava, posando de paciente e tentando assobiar uma velha canção. Mas a cidade pulsa e, no fundo, Emílio também tem pressa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O relógio digital fincado no meio dos pedestres marca meio-dia e vinte e cinco. Quase meia hora de atraso. Lembrou que ela havia assegurado que não o deixaria esperando na escadaria da Gazeta, território inóspito para ele, acostumado apenas aos arredores do cursinho na Vergueiro, onde ninguém o chamava de Emílio. Era o Ceguinho, quatro olhos, de expressão quase indecifrável sob as grossas lentes, de modos arredios, andar quase desafiador. Agora Emílio Ceguinho se sentia apenas um tanto apalermado. Mãos nos bolsos traseiros da calça jeans surrada, resistia bravamente, acompanhando o ritmo frenético da multidão sob os espigões, os olhos míopes se concentrando num ponto qualquer, de preferência um rosto, furtivo que fosse, que ao menos lhe desse alguma atenção. Uma busca inútil, era verdade. Com seus óculos, pesados como o pecado original, parecia fadado ao isolamento no granito da escadaria. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O problema era a insolência do rapaz. Foi assim, com aquele atrevimento, que ele conseguiu conquistar a garota - ou pelo menos marcar aquele encontro. Ela viera assistir uma aula qualquer (Física? Emília adorava Física), durante uma semana, mas depois voltou para o seu cursinho, na Paulista. Emílio Ceguinho viu nela algo que ninguém havia reparado, uma graça insuspeita, escondida sob trajes desajeitados. Tal como Betty, a Feia (ele também adorava séries de tevê).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meio-dia e trinta e cinco, o relógio parecia querer gritar, testando a auto-estima de Emílio. Mais uma ousadia que iria lhe custar caro, ele pensou. Já sabia como a coisa toda funcionava. O medo da rejeição - velho amigo de outrora - se erguia novamente. E aquele medo sempre chegava, sempre acabava vencendo. Mas ele não queria mais se esconder, queria? Talvez. Tirou os óculos do rosto e enxugou o suor. O relógio virou meio-dia e quarenta, e a espera continuava. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estaria mesmo condenado à solidão? Se assim fosse, de que adiantariam os óculos? Poderia viver naquele seu mundo desfocado, sem saber se provocaria, afinal, um sorriso, uma lágrima, saudade, lamentação. Porém a vida parecia tão preciosa. Estava disposto a correr o risco, mesmo que o mundo continuasse lhe ignorando. Havia algo naquela vida, ele sabia, que ainda valeria a pena enxergar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coloucou os óculos novamente, a tempo de ver o homem de preto atravessando a avenida, disputando espaço na faixa de pedestres com um estojo de músico a tiracolo. Vinha no passo solene de quem é senhor do seu próprio caminho. O sol ainda era impiedoso, já perto de uma hora, mas o homem em seu terno negro parecia não se importar. Estacionou na escadaria, bem à frente de Emílio, e abriu o estojo que empunhava. Não era muito grande, poderia carregar um saxofone ou algo assim. Emílio reparou, agora com a vista penetrante já restabelecida, que o homem tinha o cabelo escorrido, cuidadosamente cortado no meio da testa, e uma feição cerrada pela concentração. Acariciou por alguns instantes o flugelhorn dourado que estava adormecido no estojo e logo começou a tocar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O flugel, Emílio haveria de descobrir, tinha um som aveludado, abafado, quase triste. Aquela música era tão bela e estranha, tão sutil e ao mesmo tempo tão cortante. Ninguém parecia ligar para ele, apenas o olhavam de soslaio. Mas o homem estava em transe com sua própria música, nada o ofuscava. O fraseado pungente ganhava corpo, como se tivesse vida. Emílio ficou a se perguntar se ele era o único a achar aqueles sons que o homem de negro tirava do flugel algo tão extraordinário, digno da mais profunda excitação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então lhe ocorreu, inesperadamente, algo que por si só já teria valido a pena toda aquela espera. Ele deveria ser como o músico imperturbável. Afinal, Emílio Ceguinho era estranho, mas único. Como um solo de flugelhorn. O mundo seria sua música, sua improvisação às cegas, conduzida por aquela euforia contida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, quando visse a garota, falaria para ela, cheio de si:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não sabe o que você perdeu...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4084885292211299704-2142488522351742694?l=nelsonlourenco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/feeds/2142488522351742694/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4084885292211299704&amp;postID=2142488522351742694' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/2142488522351742694'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/2142488522351742694'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/2008/07/fundo-de-garrafa.html' title='FUNDO DE GARRAFA'/><author><name>Nelson Lourenço</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04425784941732260792</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp0.blogger.com/_FEI36-7-VgQ/SAIJOhqKuMI/AAAAAAAAAAg/rm6VhM7V6W8/S220/Imagem+209.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4084885292211299704.post-449166591502047177</id><published>2008-07-10T15:00:00.000-07:00</published><updated>2008-07-10T15:01:13.869-07:00</updated><title type='text'>AQUELA VELHA SANFONA</title><content type='html'>As placas iam se sucedendo, feito procissão. Xique-Xique, Feira de Santana, Senhor do Bonfim. Lugares perdidos, homem na perdição, a angústia palpitando no peito. Era João atento, de cara fechada. Homem rude, à espreita, quase atocaiado. João sanfoneiro, fazia música amiúde, mas agora suportava quieto o barulho dos ônibus se resfolegando, num último suspiro do motor. Será Maria chegando?, ele pensou. João tinha fé na mulher - nela e na velha sanfona, que viria na bagagem, sob sua recomendação.&lt;br /&gt;Chega mais um ônibus com placa de Juazeiro – e eram aquelas que lhe interessavam. Mas nada de Maria, só toda aquela gente aturdida, famílias inteiras despejadas, zonzas pela longa viagem. Com suas grandes caixas e pesadas bolsas que enchem o corredor do terminal. Malas do chão ao ombro, todos estão prontos. Cadê Maria, meu Deus? Só de imaginar que ela estava a caminho, e que em breve estariam juntos, o coração de João disparava. &lt;br /&gt;Esticou o pescoço mais uma vez, pois havia passageiro ainda para apear. Viu o moço atarracado desembarcando, e logo já abraçado a uma mulher miúda, um tanto sem jeito, que se libertara daquele arremedo de multidão, os dois agora trocando juras de amor num sotaque arrastado. Só fez aumentar a ansiedade de João. No próximo ônibus, Maria vem, ele ruminou. E a sanfona? Já estava esquecendo da danada.&lt;br /&gt;Finalmente chega o derradeiro ônibus daquela manhã. Empoeirado e triste. Todo rosto que descia topava com os olhos aflitos de João, o cabra macho naquela agonia de dar dó. &lt;br /&gt;- Você é o sanfoneiro? - o motorista perguntou. E lhe entregou a carta. Um súbito pressentimento percorreu a espinha de João.&lt;br /&gt;"João, uma tragédia aconteceu com sua sanfona. Tô até com vergonha de te contar. No caminho da rodoviária, a bichinha caiu e se quebrou. Cheguei tão apavorada para pegar o ônibus que o pessoal teve dó, fizeram vaquinha. Vendi minha passagem para um estudante e juntei o dinheiro todo, acho que dá para comprar uma nova aí em São Paulo. Pega esses 400 reais que o motorista vai te entregar. Ganha bastante dinheiro com a sanfona nova e volta pra cá, que eu vou te esperar."&lt;br /&gt;João pensou um pouco, não muito, porque era ligeiro no fole e duro na queda. Na manhã seguinte, sorriu quando encontrou o mesmo motorista da carta, ao embarcar para Juazeiro. &lt;br /&gt;Na mala, uma seda listrada, que teve o cuidado de comprar com o que restara do dinheiro da passagem. Presente para Maria. Certeza que ela iria gostar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4084885292211299704-449166591502047177?l=nelsonlourenco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/feeds/449166591502047177/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4084885292211299704&amp;postID=449166591502047177' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/449166591502047177'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/449166591502047177'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/2008/07/aquela-velha-sanfona.html' title='AQUELA VELHA SANFONA'/><author><name>Nelson Lourenço</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04425784941732260792</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp0.blogger.com/_FEI36-7-VgQ/SAIJOhqKuMI/AAAAAAAAAAg/rm6VhM7V6W8/S220/Imagem+209.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4084885292211299704.post-1066329503789002093</id><published>2008-07-06T11:09:00.000-07:00</published><updated>2008-07-06T11:10:37.726-07:00</updated><title type='text'>CELEBRIDADE</title><content type='html'>“Como funciona a vida?” Ah, se ele pudesse saber...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ele não sabia. O menino era só pele, ossos e aquele sinal de interrogação permanente, estampado no rosto. De pouca conversa, mas dado às perguntas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Lá vem o Mindinho”, diziam quando ele apontava, a cabeça redonda, negra e reluzente, na roda dos camelôs que vendiam DVD pirata, no topo da ladeira General Carneiro. Mindinho chegava encolhido, as mãos no bolso do casaco encardido e as pernas de fora, prontas para uma providencial disparada. Logo lascava a primeira pergunta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Onde vai ser hoje?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois ficava mudo, só imaginando o percurso que iria fazer se o rapa viesse naquele dia. Balbuciava as manchetes nas capas dos jornais na banca, enquanto alguém trazia café num copo plástico e um sanduíche de mortadela. “Toma aí Mindinho. Se os home aparecer, já sabe...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Disso ele sabia. O melhor aviãozinho que os camelôs poderiam ter. Do largo da Memória, onde dormia, até os limites do parque da Luz, não havia atalho que Mindinho não conhecia. O menino era uma ajuda e tanto para os negócios. Só deixava os camelôs nervosos quando, distraidamente, começava a fuçar nas pilhas de DVDs. Por precaução, escondiam os pornôs, mas Mindinho não queria ver mulher pelada. Gostava de comparar os nomes dos artistas nas capinhas dos filmes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À noite, não usava as pernas, e sim os braços. Costumava ajudar a descarregar equipamento de som nos fundos do Teatro Municipal. O encarregado sabia que os braços finos de Mindinho não eram grande coisa, mas tinha pena do menino. Deixava ele ficar por ali e de vez em quando dava uma ordem:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ô Mindinho, vai chamar fulano. Depois traz aquela corda ali pra mim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A única recomendação era não entrar no teatro, e disso Mindinho se ressentia. Aguardava a vez em que pudesse entrar no teatro grandioso, não na platéia, mas como a atração principal. Porque Mindinho queria mesmo era ser artista e tirar férias do mundo. Pelo menos daquele em que ele vivia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela noite, voltando do teatro, a cidade estava em festa. A música era tão viva, tão alegre. Virariam a noite naquela animação. Só o que Mindinho tinha a fazer era se misturar ao povo, ir de palco em palco ouvindo as canções. Bom para ele, que já sofria de insônia e muitas vezes não conseguia dormir. Mas o menino estava desorientado. Pensava no garoto, negro como ele, que já fazia filmes e dava entrevistas. Uma celebridade das capas de DVDs.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Por que alguns são escolhidos e outros não?”, Mindinho queria saber.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em vez de ir pela Barão de Itapetininga, pegou o caminho do viaduto do Chá. Viu as estátuas humanas, uma série delas, a fada, o arqueiro, o anjo. Reluzentes, brilhantes como nunca mais voltariam a ser. Turistas tiravam fotos, o ar gelado do Anhangabaú servindo como moldura. E lá embaixo o descampado onde horas antes Mindinho corria, os fiscais da prefeitura no seu encalço. Uma celebridade, isso sim ele deveria ser. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Menino, desce já daí”, disse a mulher, a única a perceber o movimento de Mindinho, já no parapeito do viaduto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se ele pudesse acordar daquele sonho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se ele pudesse voar...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4084885292211299704-1066329503789002093?l=nelsonlourenco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/feeds/1066329503789002093/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4084885292211299704&amp;postID=1066329503789002093' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/1066329503789002093'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/1066329503789002093'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/2008/07/celebridade.html' title='CELEBRIDADE'/><author><name>Nelson Lourenço</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04425784941732260792</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp0.blogger.com/_FEI36-7-VgQ/SAIJOhqKuMI/AAAAAAAAAAg/rm6VhM7V6W8/S220/Imagem+209.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4084885292211299704.post-7160889720133168643</id><published>2008-07-06T10:21:00.001-07:00</published><updated>2008-07-06T10:24:16.214-07:00</updated><title type='text'>PRECE PARA UMA GALINHA</title><content type='html'>Almoço de domingo, a família reuniu-se num falso estado de ânimo, que já beirava, pelo adiantado da hora, a mais completa desolação. Os tios, enfastiados e sem mais arenga que servisse de assunto, foram os primeiros a se acomodar. Haviam saído de Interlagos logo cedo e atravessaram a cidade, saltando de condução em condução até chegarem ao sobrado da Mooca, sem uma recepção à altura. Estavam famintos, uma vez que (lembrariam depois, consternados) nada lhes fora oferecido, nem mesmo um café que ajudasse a apaziguar o incômodo da espera. Talvez se tivessem levado o menino, houvesse alguma regalia. Mas o menino ficara com a avó e eles tiveram que suportar calados a privação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A única criança à mesa era a filha dos donos da casa, misteriosa, com grandes e admiráveis olhos azuis. Protocolar, a mãe lhe arranjou uma cadeira mais alta. E a menina estava tão grande que parecia capaz de abarcar o mundo, de captar o tudo ao seu redor. Mas ela só tinha olhos para a galinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escoltada por um leito de batatas assadas e um tanto de farofa adormecida, era só uma galinha. Pequena para um almoço de família (os tios estavam a se perguntar se uma outra carne seria servida), maltratada, ainda exalando à fumaça, a galinha deixara a menina em transe. Era mesmo estranha aquela garota, pensaram os tios. No final das contas, fora melhor ter deixado o filho em casa, longe daquela influência. Os pais, acostumados com as esquisitices da menina, ficaram esperando, até que a criança enfim despertou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A galinha morreu. Vamos rezar para ela entrar no céu – disse a menina, autoritária.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os outros se entreolharam, imobilizados pela surpresa. Antes que esboçassem reação, ela já havia disparado outra ordem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Precisa ser de pé!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ergueram-se, um tanto a contragosto, sob o olhar severo da garota mandona, que&lt;br /&gt;permaneceu sentada em seu trono. A tia sentiu bambear a perna, fraca pela fome. Coube ao pai, quase sempre omisso, improvisar uma oração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Feitas as homenagens, sentaram-se e devoraram, enfim, a galinha esturricada.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4084885292211299704-7160889720133168643?l=nelsonlourenco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/feeds/7160889720133168643/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4084885292211299704&amp;postID=7160889720133168643' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/7160889720133168643'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/7160889720133168643'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/2008/07/prece-para-uma-galinha.html' title='PRECE PARA UMA GALINHA'/><author><name>Nelson Lourenço</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04425784941732260792</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp0.blogger.com/_FEI36-7-VgQ/SAIJOhqKuMI/AAAAAAAAAAg/rm6VhM7V6W8/S220/Imagem+209.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4084885292211299704.post-7606783800611398454</id><published>2008-05-18T10:58:00.000-07:00</published><updated>2008-05-18T11:03:22.762-07:00</updated><title type='text'>TREMOR DIVINO</title><content type='html'>O bêbado aparecia todas as noites, no mesmo horário, para irritação de Altair. Parecia ter a dose certa para deixar o boteco e começar sua peregrinação noturna. Em frente à igreja evangélica em que Altair era obreiro, na rua da Consolação, bradava a plenos pulmões:&lt;br /&gt;- Não grita que Deus não é surdo.&lt;br /&gt;Altair engolia seco, ralhava com o bêbado, ficavam os dois ali, num balé meio estranho, Altair cortando o caminho dele para que não entrasse na igreja. Mas o bêbado era da paz, e tinha outros lugares para visitar. No dia seguinte, porém, lá estava ele para sua fala indefectível:&lt;br /&gt;- Não grita que Deus não é surdo.&lt;br /&gt;Mas ninguém dentro da igreja se dava conta, e o culto prosseguia, com gente cantando como se não houvesse amanhã. Só Altair se incomodava. &lt;br /&gt;Uma noite, resolveu passar a coisa a limpo. Convidou o bêbado para uma conversa. Com a experiência de quem tem angariado ovelhas para sua igreja, adentrou o território inimigo: o bar perto do templo.&lt;br /&gt;- Que negócio é esse de berrar que Deus não é surdo? Precisa parar com isso, se não vai me complicar com os outros.&lt;br /&gt;- E não é mesmo? Vocês ficam berrando, importunando o Homem. Olha que um dia Deus fica de saco cheio e...&lt;br /&gt;- E o quê? O que pode acontecer – respondeu ele, sem se alterar.&lt;br /&gt;Naquele momento, como se fosse um sinal dos céus, eles sentiram um leve tremor no balcão. A cidade estava tendo seu primeiro terremoto em mais de 50 anos, o suficiente para assustar os incautos. O bêbado interpretou aquele breve abalo como uma resposta divina:  &lt;br /&gt;- Tá vendo, é o Homem. Tá bravo com esse barulhão de vocês. &lt;br /&gt;Altair ficou assustado. Persignou-se e, sem pestanejar, roubou um trago da cachaça do outro. &lt;br /&gt;Encontraram-se de novo na noite seguinte, o bêbado pronto para o mesmo balé de sempre:&lt;br /&gt;- Não grita que Deus não é surdo.       &lt;br /&gt;Altair não reagiu dessa vez. Agora trabalhava com fones de ouvido. Escutaria seus louvores e deixaria que a ira de Deus caísse sobre os outros.&lt;br /&gt;O bêbado seguiu em frente, altivo, sentindo-se cada vez mais sábio na sua caminhada.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4084885292211299704-7606783800611398454?l=nelsonlourenco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/feeds/7606783800611398454/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4084885292211299704&amp;postID=7606783800611398454' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/7606783800611398454'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/7606783800611398454'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/2008/05/tremor-divino.html' title='TREMOR DIVINO'/><author><name>Nelson Lourenço</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04425784941732260792</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp0.blogger.com/_FEI36-7-VgQ/SAIJOhqKuMI/AAAAAAAAAAg/rm6VhM7V6W8/S220/Imagem+209.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4084885292211299704.post-8914262639184497409</id><published>2008-05-18T10:36:00.000-07:00</published><updated>2008-05-19T09:21:33.534-07:00</updated><title type='text'>UPGRADE NO CAMINHO</title><content type='html'>O neto estendeu a mão para o táxi. Mas, quando o motorista parou, em frente ao Conjunto Nacional, foi a velhinha a primeira a entrar no carro. Foi entrando e ordenando:&lt;br /&gt;- Toca para a Cupecê.&lt;br /&gt;O neto logo reparou nos penduricalhos. Tinha 13 anos e era fissurado em tecnologia. O taxista, percebeu, orgulhoso, o olhar de espanto. Era algo comum. Normalmente, deixava os passageiros puxarem conversa, mas, daquela vez, foi adiantando o assunto:&lt;br /&gt;- É uma tela de última geração. Dá pra navegar na internet, basta tocar nela.&lt;br /&gt;- Demais – devolveu o garoto, ainda aturdido. Não sabia que havia táxis assim em São Paulo. A&lt;br /&gt;velhinha bocejou, impassível. Carregava no colo uma bolsa que parecia valiosa, tamanho o cuidado que tinha com ela.&lt;br /&gt;- Se você tiver um mp3 aí – prosseguiu o taxista – posso adicionar na memória do rádio pelo bluetooth. Mas se você não tiver, tudo bem. Tenho um ipod aqui com mais de mil músicas.&lt;br /&gt;- Do caramba! Você não acha, vovó?&lt;br /&gt;A velhinha não respondeu. Olhou para o lado e continuou segurando firme a bolsa no colo.&lt;br /&gt;- E o que é esse aparelho aí na sua frente? - o menino perguntou.&lt;br /&gt;- Um GPS. Só que não tem ainda desse tipo no Brasil. Ele me dá as instruções de trânsito, tá vendo?&lt;br /&gt;A geringonça ordenou “vire à esquerda”, e eles entraram na 23 de maio.&lt;br /&gt;- Tudo isso deve valer uma fortuna – disse o menino. Os olhos da velhinha brilharam. Já não estava mais desinteressada na conversa.&lt;br /&gt;- É, mas vale a pena. É o meu marketing, sabe, tenho até comunidade no orkut – respondeu o taxista, enquanto a velhinha reparava que ele era um sujeito mirrado, inofensivo.&lt;br /&gt;- Duas revistas já me entrevistaram – continuou o motorista, com ar de satisfação.      &lt;br /&gt;A conversa continuou por alguns quilômetros, o suficiente para a velhinha se inteirar de toda a parafernália que o taxista levava no carro. Trocou olhares com o neto e esperou. O menino já sabia o que iria acontecer. &lt;br /&gt;De repente, a velha sacou a arma de algum lugar entre aquela sucessão de blusas que usava por sobre o corpo encarquilhado.        &lt;br /&gt;- É um assalto. Vai entrando aí na próxima rua.&lt;br /&gt;Antes que esboçasse reação, o taxista viu a ponta da lâmina brandida pelo menino, quase no seu pescoço. Logo descobriu que havia ainda muito mais espaço na bolsa da mulher para levar tudo o que juntara, com esforço, dentro do táxi. &lt;br /&gt;Deixaram o motorista numa quebrada. A velhinha assumiu o volante, satisfeita. O menino ficou imaginando se ganharia de presente aquele ipod, quando fizessem a partilha.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4084885292211299704-8914262639184497409?l=nelsonlourenco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/feeds/8914262639184497409/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4084885292211299704&amp;postID=8914262639184497409' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/8914262639184497409'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4084885292211299704/posts/default/8914262639184497409'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nelsonlourenco.blogspot.com/2008/05/upgrade-no-caminho.html' title='UPGRADE NO CAMINHO'/><author><name>Nelson Lourenço</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04425784941732260792</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp0.blogger.com/_FEI36-7-VgQ/SAIJOhqKuMI/AAAAAAAAAAg/rm6VhM7V6W8/S220/Imagem+209.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry></feed>
